A formação de professores de língua adicional
Educação
ter jun 2
Cristiane Corsetti
Cristiane Corsetti

Cristiane Corsetti

Coordenadora Acadêmica do Edify. Graduada em Letras - Inglês e Alemão (PUCRS), possui especialização em Língua Inglesa e Mestrado e Doutorado em Linguística Aplicada pela PUCRS, com período sanduíche na Universidade de Lancaster, na Inglaterra. Sólida experiência como professora de inglês e treinadora de professores e mentores. Adora literatura, música e dança moderna.

Cristiane Corsetti

A formação de professores de língua adicional

Um dos grandes desafios na implementação de programas bilíngues em escolas é a formação de professores. De nada adianta materiais didáticos de vanguarda, ferramentas digitais e projetos inovadores se docentes não possuírem uma visão clara dos objetivos dos mesmos, domínio de técnicas de sala de aula e familiaridade com metodologias ativas, sem falar no pré-requisito de proficiência na língua adicional.  Essa combinação de saberes potencializa aprendizados, vivências e experiências de emergentes bilíngues.

Alinhamento de objetivos e formação inicial

Primeiramente, é de suma importância que o treinamento inicial de professores reflita os objetivos e os princípios norteadores do programa. No nosso contexto educacional, destacamos os seguintes pilares pedagógicos: excelência linguística, abordagem interdisciplinar baseada em projetos,  resolução de problemas e desenvolvimento de pensamento crítico, cidadania global e utilização de metodologias ativas.  

Geralmente, formações iniciais intencionam capacitar professores para a implementação de um programa adotado em segmentos específicos, como, por exemplo, ensino infantil, ensino fundamental, etc.  Sua duração pode variar de 18 a 30 horas iniciais presenciais, o que não impede que alguns tópicos possam ser abordados de forma híbrida. Com relação ao conteúdo, cursos de formação inicial em língua adicional poderão englobar temas relacionados às seguintes áreas: 

– Projeto pedagógico do programa

– Abordagens metodológicas (abordagem comunicativa, metodologia de projetos, CLIL, etc.)

– Sistemas de linguagem (gramática, vocabulário e fonologia)

– Habilidades de linguagem (compreensão auditiva, leitura, fala e escrita)

–  Técnicas de ensino de crianças pequenas, pré-adolescentes e adolescentes

–  Gerenciamento de sala de aula

– Habilidades do século 21 (comunicação, colaboração, pensamento crítico, criatividade e habilidades socioemocionais)

– Metodologias ativas

– Letramentos digitais e midiáticos

– Materiais didáticos (linguísticos e eixos de conhecimento), projetos complementares, recursos digitais e laboratórios de aprendizagem

– Avaliação formativa e somativa

– Planejamento de aulas 

O papel de observações de aula na formação continuada

Após formações iniciais, os professores idealmente deveriam contar com o apoio pedagógico de um mentor ou coordenador para ações específicas, como encontros periódicos. Estes podem incluir discussões relacionadas às questões do programa e materiais, preparação de atividades, projetos interdisciplinares da escola, necessidades específicas, estratégias para diferenciação, sistema de avaliação, desempenho dos alunos, mensuração de aprendizado, etc. 

Além disso, enfatizamos a importância de observações de aula com caráter formativo pois possibilitam que docentes e mentores construam, em conjunto, um ciclo contínuo e individualizado de aprendizado e desenvolvimento acadêmico. Para tal, os processos observação de aula podem incluir os seguintes estágios:

  1. Agendamento de data para observação de aula presencial 
  2. Compartilhamento e discussão sobre os critérios de avaliação de aula 
  3. Elaboração de plano de aula pelo professor e submissão
  4. Discussão entre mentor e professor sobre o plano de aula
  5. Observação de aula e preenchimento de formulário (em papel ou online) 
  6. Feedback oral 
  7. Discussão sobre plano de ação 
  8. Feedback escrito
  9. Implementação de plano de ação

Em paralelo, um programa bilíngue bem estruturado academicamente analisará os dados de observações de aula das escolas e desenhará planos de ação em conjunto com mentores, sempre levando em consideração o estágio de desenvolvimento individual de cada docente. Estes planos podem ser individuais ou para toda a equipe de um segmento específico. Dentre as opções individuais, salientamos o planejamento de aulas em conjunto com mentores, leituras, observações de pares, “team teaching” (o mentor ministra um estágio de uma aula para demonstrar uma prática específica para o professor), gravação de uma aula (ou parte dela) para feedback próprio, reflexão e discussão posterior e autoavaliações.

Como desenvolvimento de equipe por segmento por escola, destacamos treinamentos específicos de práticas ainda em desenvolvimento, workshops sobre tópicos relevantes, planejamento de atividades extras em grupo e “swap shops” (workshops nos quais os professores demonstram práticas ou atividades para os pares). Essas ações pedagógicas visam contribuir para que a escola forme um time de excelência e proporcione aos alunos a otimização de experiências de aprendizado e vivências em língua adicional.

Competências adicionais

Porém, não podemos esquecer que o papel do professor transcende os conhecimentos de sua disciplina, técnicas e habilidades específicas. Perrenoud (2000) sugere que além de saberes, docentes necessitam desenvolver competências profissionais que vão além de seu domínio disciplinar, de caráter inovador e interpessoal:

1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem.

2. Gerar a progressão das aprendizagens.

3. Conceber e fazer com que os dispositivos de diferenciação evoluam.

4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e no trabalho.

5. Trabalhar em equipe

6. Participar da gestão da escola.

7. Informar e envolver os pais.

8. Utilizar as novas tecnologias.

9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão.

10. Administrar sua própria formação contínua.

Para que muitas destas práticas possam ser implementadas, é importante que pais e comunidade escolar sejam parte integrante dos processos de ensino e aprendizagem. Além disto, é essencial que professores coloquem seus alunos no centro do processo de aprendizagem.  E por fim, é fundamental que docentes se tornam agentes de seu próprio desenvolvimento. 

Bibliografia

Bacich, Lilian; Moran, Jose ( 2017). Metodologias Ativas para uma Educação Inovadora: Uma Abordagem Teórico-Prática.

Moran, Jose (2015). Mudando a educação com metodologias ativas. [Coleção Mídias Contemporâneas. Convergências Midiáticas, Educação e Cidadania: aproximações jovens. Vol. II] Carlos Alberto de Souza e Ofelia Elisa Torres Morales (orgs.). PG: Foca Foto-PROEX/UEPG.

Perrenoud, Philippe (2000). Dez Novas Competências para Ensinar. Porto Alegre : Artmed Editora.

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