O bilinguismo atrapalha no processo de alfabetização?
Bilinguismo
qui mar 14
Jucymar Boccazio
Jucymar Boccazio

Jucymar Boccazio

Coordenadora Pedagógica e formadora de professores pelo Edify. Graduada em Letras (Português/Inglês) pela PUC/RJ e especialista Educação Infantil pela AVM. Há mais de 20 anos desenvolve pesquisa e produção de conteúdo pedagógico na área de ELT e bilinguismo. É a editora responsável pela série Shake It, produzida pela Learning Factory para crianças de 2 e 3 anos.

Jucymar Boccazio

O bilinguismo atrapalha no processo de alfabetização?

A Educação Infantil é um espaço de aprendizagem e desenvolvimento. É fundamental oferecer é um espaço de aprendizagem e desenvolvimento aos pequenos. Afinal, lidar com dois idiomas com características próprias não é estranho à criança quando ela já tem um bom desenvolvimento oral. Em muitos lugares no mundo há crianças que crescem naturalmente bilíngues.

A aprendizagem de uma segunda língua não interfere nem atrapalha no processo de alfabetização. Muito pelo contrário, aprender um outro idioma fortalece o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como a capacidade de conceituação, a criatividade, a memória, a atenção e a consciência metalinguística.

Num contexto de ensino bilíngue, os alunos lidam constantemente com dois sistemas linguísticos distintos de representação conceitual (a língua materna e a língua adicional) e, nesse processo, adquirem precocemente habilidades que são fundamentais para o desenvolvimento da leitura e da escrita.

Dentre essas habilidades podemos destacar: a atenção sustentada; a acuidade auditiva (reconhecimento e discriminação não apenas dos sons presentes na língua materna, como também daqueles específicos do segundo idioma); a percepção da arbitrariedade dos signos (ao utilizar duas palavras distintas para conceituar um mesmo objeto que conhecem, como “ball” e “bola”), a capacidade de síntese (quando filtram a informação e depreendem o que é mais importante para dar sentido à comunicação – entendimento global) e a consciência metalinguística.

A consciência metalinguística é um termo abrangente que envolve diferentes competências, tais como, segmentar e manipular a fala em diversas unidades (palavras, sílabas, fonemas), estabelecer diferenças entre significados e significantes (separar as palavras dos objetos concretos ou abstratos a que se referem) e perceber semelhanças ou diferenças sonoras entre palavras (rimas).

A criança que vivencia um ambiente alfabetizador bilíngue está exposta a situações diversificadas de uso oral do idioma e da sua forma escrita. Ela constantemente toma decisões acerca dos sons de letras e palavras, assim como do vocabulário que vai utilizar em determinado contexto para responder ao estímulo linguístico, mediado pelo professor.

Dessa forma, ela manipula melhor os sons e apresenta consciência metalinguística mais desenvolvida. Além disso, por estar exposta a uma variedade maior de materiais impressos em ambas as línguas, a criança desenvolve um conhecimento mais aprimorado sobre as convenções da escrita.

Como se aprende a ler e a escrever?

As crianças desde pequenas estão imersas num mundo letrado. Convivem com adultos alfabetizados e tem acesso a diversos materiais escritos, como livros, folhetos, jornais, rótulos de embalagem, bula de remédio, lista de supermercado, receita, etc, tanto no âmbito de casa, como na escola. As experiências e interações com esses elementos alfabetizadores lhes impulsiona a construir hipóteses sobre o sistema de escrita e seus diferentes usos e funções sociais.

Aprender a ler e a escrever é um processo que envolve percepção, desenvolvimento motor e conceituação. Esse processo demanda a compreensão das concepções de alfabetização e letramento.

Entende-se por alfabetização o processo pelo qual se adquire o domínio de um sistema linguístico e das habilidades para utilizá-lo para ler e escrever. Refere-se à aquisição da escrita e está associada à codificação e decodificação de palavras e frases. Já letramento diz respeito às habilidades de leitura e de escrita nas práticas sociais.

Para aprender a ler e a escrever, é preciso participar de atos de leitura e de escrita. É preciso que a criança tenha contato sistemático com a linguagem escrita, em situações contextualizadas e que façam sentido. Por exemplo, manuseio de livros, leitura de textos de variados estilos textuais, escrita de nomes, cartazes, bilhetes, etc.

E como ocorre a alfabetização bilíngue?

alfabetização bilíngue pode ocorrer de forma simultânea ou sequenciada. Na forma simultânea, a escrita de ambas as línguas é explorada ao mesmo tempo e o processo se dá concomitantemente. Na alfabetização sequenciada, a criança é alfabetizada na língua materna e somente após o domínio da leitura e da escrita na primeira língua é que se inicia o processo de alfabetização na segunda.

Na alfabetização sequenciada, a criança é alfabetizada na língua materna e somente após o domínio da leitura e da escrita na primeira língua é que se inicia o processo de alfabetização na segunda. Você pode entender mais sobre esse processo nas escolas aqui no blog.

Vale ressaltar que ao longo do processo de alfabetização bilíngue, há uma transferência das habilidades e conhecimentos adquiridos de uma língua para outra, tais como a atenção, a discriminação fonética, o conhecimento prévio de que a representação gráfica carrega sentido, a percepção de que a sequência escrita pode ser quebrada em partes menores como as palavras ou letras, o estabelecimento da relação entre letra e som, a decodificação, o reconhecimento da estrutura frasal ou textual, etc.

Portanto, conclui-se que a educação bilíngue oferece grandes vantagens ao aluno que está sendo alfabetizado e, por isso, pode ser muito benéfico para a educação infantil (leia mais sobre no artigo Importância do bilinguismo na Educação Infantil).


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