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Bilinguismo: Quanto mais cedo, melhor?

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Você já ouviu falar que crianças têm talento natural quando se trata de aprendizado de uma língua adicional? Ou talvez você conheça alguém que acredita que já passou da idade para fazer aulas de inglês. Pode ser ainda que você tenha ouvido o oposto, ou seja, que expor a criança a dois idiomas ao mesmo tempo cause confusão e atrase o seu desenvolvimento. O que é mito e o que é fato? O propósito deste artigo é desmistificar algumas crenças ao redor da temática do bilinguismo e da educação bilíngue na educação infantil com base nos debates acadêmicos e nas evidências científicas da neurociência.  

 A ideia de que há um certo período de aquisição máxima de línguas e de que é essencial estar exposto a elas antes que essa janela se feche ainda é uma questão controversa. Uma noção amplamente discutida é que há um período de maturação para o desenvolvimento linguístico. Lenneberg (1967) popularizou esse conceito de Hipótese do Período Crítico inspirado pelo trabalho de Penfield (1959) para sugerir que, como muitos outros sistemas e funções biológicas, a língua deve ser adquirida antes de uma certa idade ou nunca será desenvolvida corretamente. 

Com base nessa noção de período crítico, que termina na puberdade (entre 12 e 13 anos) de acordo com Lenneberg e Krashen (1973), educadores, legisladores e pais em todo o mundo podem tomar decisões muito importantes sobre a aprendizagem de uma língua adicional na vida das crianças. No entanto, quão certa é a ciência sobre este período crítico? Como isso pode ser testado? E as pessoas que aprenderam um idioma após esse período?  É melhor começar antes ou depois? Vamos tentar responder a algumas dessas questões abaixo:

 1. A aquisição e o aprendizado da língua são a mesma coisa?

Você deve ter notado que às vezes trocamos a palavra aquisição por aprendizagem. Fazemos isso quando o foco é o resultado final, porém, pode-se pensar em aquisição como o esforço inconsciente, mais implícito ou natural, enquanto a aprendizagem significa esforço mais explícito e consciente. De acordo com um estudo feito em Israel (Ferman & Karni, 2010), as crianças usam mecanismos mais implícitos, ou seja, adquirem a língua naturalmente sem ter que pensar muito no processo, enquanto os adultos usam mecanismos mais explícitos, o que envolve criar estratégias de estudo além de refletir sobre o processo de aprendizado. 

 2. Quanto tempo dura esse período crítico?

Diferentes autores chegaram a diferentes conclusões. Esse período pode ser entre 10 meses e 18 anos. No entanto, uma coisa com a qual os autores parecem concordar é que pode haver diferentes períodos críticos para diferentes aspectos de uma língua. A capacidade de distinguir certos fonemas, por exemplo, parece ter um período crítico que termina antes de 1 ano de idade (Kuhl et al. 2014). 

O maior estudo sobre esse tema foi conduzido por Hartshorne, Tenenbaum e Pinker (2018) em quase 700 mil pessoas de todo o mundo e os autores chegaram à conclusão que nossa capacidade de aprender uma língua adicional começa a decair após os nossos 17 anos de idade.

Porém, os autores levantam a questão sobre esse declínio estar exclusivamente relacionado à maturação cerebral ou à perda de interesse ou dificuldade de priorização do aprendizado de línguas, o que normalmente é acompanhado de uma mudança brusca na vida social, (universidade e trabalho por exemplo). Além disso, esse grande estudo não testou um aspecto importante da língua: a fala.

 3. Como os pesquisadores podem testar a Hipótese do Período Crítico?

Seria antiético privar as crianças da exposição à língua por muitos anos e depois fazer isso para estudar se elas ainda seriam capazes de adquirir essa língua. É por isso que os pesquisadores olham para a aquisição de uma língua adicional para compreender esse fenômeno, mesmo sendo algo diferente.

Uma criança que nunca foi exposta a nenhuma língua não pode ser exatamente comparada a uma criança que já está desenvolvendo, ou já desenvolveu, sua língua de berço e está sendo exposta a uma língua adicional. Pense no seguinte: se uma criança tivesse sido forçada a ficar sentada por muitos anos, ela poderia não conseguir desenvolver a habilidade de ficar de pé e caminhar. No entanto, uma criança que já caminha tem todo o repertório necessário para aprender a correr.

Alguns estudos com crianças ferais, abandonadas ou negligenciadas na infância (Curtiss, 1977), sugerem que existe um período crítico curto para a aquisição da primeira língua. Um caso famoso foi de uma garota chamada Genie, que passou a infância trancada na garagem pelo pai, que tinha problemas psicológicos, e foi encontrada quando tinha atingido a puberdade. Mesmo trabalhando com uma linguista e psicóloga, Genie nunca conseguiu se comunicar bem.

A questão é: isso ocorreu porque a janela do período crítico havia se fechado ou foi consequência de um trauma psicológico? 

 4. É impossível (ou quase impossível) aprender um idioma após o período crítico?

Há muitas evidências por aí que apoiam o fato de que podemos aprender línguas em qualquer idade. Alguns autores como Norrman e Bylund (1995) preferem usar a noção montessoriana de períodos sensíveis ao invés de críticos porque ao final de um período crítico, deveríamos observar um declínio acentuado na aquisição de uma função, como o que ocorre com a visão, o que não parece acontecer para uma língua adicional.

 5. O que diz a ciência?

Alguns estudos de neuroimagem (Andrews et al. 2013, Abutalebi, 2008) sugerem que a idade de aquisição talvez não seja tão importante quanto o tempo de exposição.

Quando indivíduos com alta proficiência na língua adicional foram testados em uma máquina de ressonância magnética funcional, os autores foram capazes de demonstrar que língua nativa e a língua adicional ativam muitas das mesmas regiões no cérebro, o que não acontece quando os níveis de proficiência são diferentes.

Isso pode sugerir que o nível final de proficiência de uma língua adicional pode ser bastante semelhante ao da língua nativa caso o tempo de exposição e utilização dessa língua adicional seja prolongado.

A literatura científica sugere vantagens como ganhos de cognição, particularmente nas funções executivas que exercem o papel de atualizar a memória, mudar o foco entre tarefas e inibir as interferências, elementos fundamentais para o aprendizado.

Isso quer dizer mais memória e mais atenção além de raciocínio lógico e matemático (Bialystok et al. 2004). Também há ganho de reserva cognitiva, o que garante a proteção por mais tempo do cérebro contra demência, prolongando sua vida útil em 5 anos na média (Bialystok et al. 2004). Não podemos esquecer dos ganhos relacionados à criatividade, empatia, e compreensão de outras perspectivas e realidades.

Sabe-se ainda que a norma do planeta é o multilinguismo. Abutalebi e Perani (2012) afirma que o cérebro humano não evoluiu para acomodar apenas uma língua e que mais de 50% da população mundial utiliza dois idiomas ou mais para se comunicar.

É natural que essa população multilíngue utilize todo o seu reportório linguístico na hora da comunicação, logo, quando as crianças estão adquirindo uma língua adicional, elas podem misturar ou trocar palavras sem nenhum problema. García e Wei (2014) explicam esses fenômenos (code-switching e translanguaging) e demonstram como isso é um aspecto normal do cérebro bilíngue. Pensem nas crianças bilíngues como musicistas que tocam diversos instrumentos. Às vezes, faz sentido usar o trompete para tocar uma música, outras vezes, o piano funciona melhor.

6. Existe, portanto, alguma vantagem em começar a aprendizagem de uma língua adicional na infância?

Já que os adultos precisam de mais esforço consciente para aprender uma língua adicional e normalmente têm outras prioridades na vida, podemos concluir que começar na infância tem vantagens. No entanto, vale lembrar que tanto crianças quanto adultos têm capacidade de aprender inglês ou qualquer outra língua e alcançar a proficiência.

 As crianças e adolescentes podem ter outras vantagens:

  1. Mais exposição à língua adicional fora da sala de aula;
  2. Menos interferência da sua língua nativa na língua adicional, já que elas estão se desenvolvendo quase que simultaneamente;
  3. Menos medo de exposição na aula;
  4. Menos escolha, uma vez que quem decide sobre o que elas vão estudar ou não são as famílias. Isso quer dizer que a crianças ficarão expostas por alguns anos à língua adicional dentro da escola enquanto os adultos normalmente passarão por diversos cursos buscando a “solução perfeita” para os seus objetivos

Talvez as vantagens mais expressivas em se começar antes possam ser resumidas em um ditado em inglês:

“The early bird catches the worm”

A tradução literal é algo como: o pássaro que levanta cedo pega a minhoca. Isso quer dizer que quanto mais cedo, maior a chance de desfrutar dos benefícios do bilinguismo.

Conclusão

Quando os diversos períodos críticos têm início e fim continuará sendo uma questão de debate. O que a pesquisa sabe com certeza é que há evidências convincentes de um declínio na capacidade de aprender línguas após um determinado período de nossas vidas. Esse declínio pode ter razões biológicas, sem dúvida, mas, também, pode estar relacionado a aspectos sociais e do ambiente.

A língua é uma construção social e não depende apenas da exposição a estímulos ambientais. Requer interação social, esforços implícitos e explícitos, reflexão e persistência por um determinado período. Não podemos esquecer de olhar para o outro lado dessa história e ver quantas pessoas estão por aí que começaram a aprender uma língua adicional na casa dos 30, 40, 50 anos ou mais e tiveram sucesso. Qualquer pessoa com oportunidade de acesso, um bom curso com recursos, determinação e paciência provavelmente chegará à proficiência em uma língua adicional.

Não existe solução mágica, o processo requer esforço e leva mais tempo do que gostaríamos. Contudo, imagine ter a capacidade de obter de maneira mais natural uma ferramenta que lhe dê uma vantagem cognitiva ainda quando criança, na época da escola, com todos os desafios da vida acadêmica.

Com essa ferramenta, você pode ter ganhos expressivos no seu desempenho escolar, ter melhor controle sobre o seu comportamento, conseguir ver as coisas por outro ângulo. Você não gostaria de usar essa ferramenta o mais cedo possível na sua vida? Afinal de contas:

  “Deus ajuda quem cedo madruga”

Referências

Abutalebi J (2008) Neural aspects of second language representation and language control. Acta Psychol 128: 466–478.

Abutalebi, J. Perani, D. Bilingualism, Editor(s): Arthur W. Toga, Brain Mapping, Academic Press, 2015, Pages 469-473

Andrews, E., Frigau, L., Voyvodic-Casabo, C., Voyvodic, J., & Wright, J. (2013). Multilingualism and fMRI: Longitudinal Study of Second Language Acquisition. Brain sciences, 3(2), 849-76. doi:10.3390/brainsci3020849

Bialystok, E., Craik, F. I., Klein, R., & Viswanathan, M. (2004). Bilingualism, aging, and cognitive control: evidence from the Simon task. Psychology and aging, 19(2), 290.

Curtiss. (Perspectives in neurolinguistics and psycholinguistics). New York [etc.] ; London:Academic Press.

Ferman, S., Karni, A. (2010). No childhood advantage in the acquisition of skill in using an artificial language rule. PLoS ONE, 5(10), E13648.

García, O., & Wei, L. (2014). Language, bilingualism and education. In Translanguaging: Language, bilingualism and education (pp. 46-62). Palgrave Macmillan, London.

Hartshorne, Tenenbaum, & Pinker. (2018). A critical period for second language acquisition:Evidence from 2/3 million English speakers. Cognition, 177, 263-277.

Krashen, S. (1973). Lateralization, language learning, and the critical period. Language Learning, 23, 63–74.

Kuhl PK, Ramírez RR, Bosseler A, Lin JF, Imada T. (2014). Infants’ brain activity in response to speech. Proceedings of the National Academy of Sciences Aug 2014, 111 (31) 11238-11245; DOI: 10.1073/pnas.1410963111

Lenneberg, Eric H. (1967). BIOLOGICAL FOUNDATIONS OF LANGUAGE. BIOLOGICAL FOUNDATIONS OF LANGUAGE., 1967.

Norrman, G., & Bylund, E. (2016). The irreversibility of sensitive period effects in language development: Evidence from second language acquisition in international adoptees. Developmental Science, 19(3), 513-520.

Penfield, W. (1959). The Interpretive Cortex. Science, 129(3365), 1719-1725.

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