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Combate ao bullying: pensando na biologia do amor

  • Bilinguismo

No dia 20 de outubro, o mundo todo se une a fim de lembrar a importância de uma luta cotidiana: o combate ao bullying, e estimular a empatia e os laços de afeto. 

Substantivo da língua inglesa, Bully que significa brigão, valentão ou valentona, é uma palavra que infelizmente só existe porque ainda não acolhemos as diferenças. Com certeza o tema não é novo, mas a não ser que você seja um especialista, ainda deve ter muitas dúvidas sobre como lidar com essa situação. 

Segundo a UNICEF, 1 em cada 3 crianças entre 13 e 15 anos é vítima regularmente de bullying no ambiente escolar. No Brasil, embora conte com uma legislação específica há alguns anos, e já seja estudado desde o final da década de 90, ainda encontramos muitas lacunas a serem pesquisadas para que possamos entender melhor as raízes do problema e encará-lo com propostas e ações mais eficazes. 

O bullying pode ocorrer em casa, no trabalho, mas em geral é no ambiente escolar, na sala de aula, que se dá a maioria dos casos. Muitas vezes, disfarçada de brincadeiras que parecem normais da convivência, encontra-se um tipo de violência persistente, metódica, cotidiana, que não precisa de uma justificativa para ocorrer.

Qualquer diferença na vítima pode ser o estopim para a não aceitação: religião, raça, estatura física, peso, cor dos cabelos, deficiências visuais, auditivas e vocais; ou é uma diferença de ordem psicológica, social, sexual e física; ou está relacionada a aspectos como força, coragem e habilidades desportivas e intelectuais*.

Essa violência pode ser psicológica e física, verbal, sexual ou virtual, velada ou explícita. Envolve uma dinâmica onde quem agride de alguma forma percebe vulnerabilidade no outro, que se não possui estratégias internas para lidar com a situação, sofre silenciosamente e passa a apresentar mudanças em seu comportamento como aumento das faltas e a queda no rendimento escolar, perda de sono, irritabilidade, retraimento e até consequências mais graves, como depressão ou suicídio. 

Na maioria dos casos o agressor pode ser classificado em dois tipos: alguém que é agredido em outro ambiente e passa também a agredir ou alguém que possui um distúrbio de personalidade, pois sente prazer em agredir ou ver o sofrimento da vítima. Qualquer estratégia para lidar com a questão precisa envolver e ajudar não só quem é agredido, mas também quem agride. 

O que fazer? Por onde começar o combate ao bullying? 

Não existe uma receita. Cada caso precisa ser visto como único e os envolvidos atendidos nas suas necessidades individuais, mas podemos fazer algumas reflexões e pensar caminhos. 

O primeiro ponto é não esperar o problema surgir para iniciar uma ação. O bullying existe e provavelmente já acontece dentro ou fora da sua sala de aula mesmo que você não saiba. Ele existe em todo o mundo nos mais diversos contextos culturais ou econômicos.

A conscientização já é obrigatória em todo o Brasil desde a publicação da Lei 13.663/18, quando passou a ser atribuição das escolas a promoção da cultura da paz e medidas de conscientização, prevenção e combate a diversos tipos de violência, como o bullying. É preciso agir de forma preventiva e não apenas reativa, envolvendo toda a comunidade escolar em um trabalho permanente de educação sobre o tema, além de desenvolver competências socioemocionais. E principalmente, criar um ambiente de segurança e afeto para todos. 

Pesquisas sobre como as vítimas enfrentam a situação mostram que a estratégia mais efetiva para superação da violência é buscar ajuda de alguém que seja uma referência afetiva. A maioria das crianças e adolescentes elege um dos pais como aquele a quem vai confiar seu sofrimento.

Quando os pais acolhem a queixa, orientam estratégias de convivência e tomam atitudes objetivas como buscar a escola e trabalhar em conjunto construindo soluções, a criança ou o adolescente se sentem seguros e podem manter ou recuperar a estrutura emocional.

Infelizmente, se a queixa é minimizada e as atitudes de bullying são vistas apenas como brincadeiras normais dentro de um grupo, as consequências se agravam, a sensação de desamparo aumenta e o desenvolvimento afetivo e cognitivo é comprometido. É preciso que os pais, professores e toda a comunidade escolar estejam disponíveis para serem tutores de resiliência. 

A Biologia do Amor 

Pensando na Biologia do Amor de Humberto Maturana, renomado biólogo e pesquisador chileno, precisamos voltar a questão central do bullying que é a não aceitação da diferença. 

Na ótica da Biologia do Amor a colaboração e aceitação das diferenças é o que permitiu que nossa espécie sobrevivesse. Não sobreviveu o homem mais forte, mas sim aquele que soube cooperar e viver em grupo. Mesmo o mais forte sozinho não sobreviveria. Esta é uma mudança de paradigma para o olhar da nossa biologia onde o amor, o afeto e a construção de relações significativas através da aceitação do outro nos permitiu continuar existindo. 

Maturana vai além quando nos provoca dizendo que tolerar ainda não é o suficiente. A tolerância é um passo crucial, mas é preciso ir além e aceitar o outro (mesmo que não aceitemos suas atitudes) e juntos estabelecermos uma “dança afetiva” onde ambos vão se construindo e reconstruindo. A aceitação cria espaço para ouvir, rever e mudar. 

Esse olhar afeta a abordagem dos programas de desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Na verdade, não estamos criando algo, estamos apenas caminhando na nossa linha evolutiva. Nossa biologia é a do amor, da colaboração e da aceitação da diferença e é privilegiando laços afetivos e a construção de relações significativas que continuaremos nossa história como espécie. 

Conscientizar a população mundial para esta forma de violência, apoiar e incentivar as vítimas a denunciarem essas graves situações e encontrar formas de as prevenir são os desafios colocados pelo dia 20 de outubro, mas o desafio diário da educação é nos lembrar que a nossa origem biológica nos tornou plenamente capazes de amar e aceitar uns aos outros. Precisamos criar nossas crianças e adolescentes nesta perspectiva: somos seres que evoluímos no amor e dependemos dele para seguir em frente. 

Autor: Ana Rosa Airão 
Neuropediatra – Professora do Curso de Medicina da UNIRIO 

*Ref: Fante, C. (2005). Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. São Paulo: Verus. 

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