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Duas mulheres planejando o novo ano letivo em um calendário gigante

Como funciona o processo de aprendizagem?

  • Práticas Pedagógicas

A História da humanidade nos revela nosso fascínio pelo processo de aprendizagem e a busca pela compreensão de como aprendemos. Desde as primeiras civilizações, filósofos, sacerdotes, políticos, médicos, entre outros, provavelmente fizeram em algum momento de suas vidas as seguintes perguntas:

Como aprendemos? Por que alguns aprendem melhor? Como podemos aprender com mais rapidez

Com os tempos modernos e o surgimento das ciências da mente e do cérebro, que respostas podemos dar a essas perguntas milenares? O propósito deste texto é resgatar algumas das teorias mais populares sobre a aprendizagem e descrever seus conceitos fundamentais.

História da Aprendizagem 

Na Antiguidade, egípcios e gregos acreditavam que inteligência, sentidos e emoções eram funções do coração (Wickens, 2015). No entanto, por volta do século 5 aC, um filósofo e médico de nome Alcmeão de Crotona já havia sugerido que o cérebro era a sede da mente, que controlava a inteligência, assim como os sentidos (Wickens, 2015). 

 Outros filósofos da Grécia Antiga que viveram cerca de um século depois, como Sócrates e seus discípulos, em particular Platão, acreditavam que o conhecimento era inato, ou seja, que já nascemos com ele, e podia ser acessado ou revelado por meio da reflexão (Cordasco, 1976). 

A maiêutica, comumente conhecida como Método Socrático, sugere que a verdade emerge através do diálogo, ou uma série de questões, no qual a apresentação de uma afirmação (tese) é desafiada por outra afirmação (antítese) sucessivamente na tentativa de juntar as visões opostas em uma verdade mais refinada (síntese) ou descartá-las completamente (refutação) apenas para iniciar este processo de questionamento novamente. 

Pode-se argumentar que Sócrates deu origem aos primeiros desenvolvimentos da pedagogia crítica, tão disseminada por Paulo Freire, embora seus métodos não tenham se tornado parte de debates e políticas educacionais até bem recentemente (Benson, 2000; Schunk, 2012).

Contudo, na época de Sócrates, em outras partes do mundo ocidental, como Esparta e o Império Romano, e na Ásia, particularmente na China e na Índia, a noção de aprendizado por meio da disciplina e da obediência era generalizada.

 Essa noção de perfeição por meio da prática, e muitas vezes da penitência, foi replicada por muitos países, desde a Idade Média até os tempos mais contemporâneos. Acreditava-se que punir fisicamente os alunos era uma forma eficaz de fazê-los aprender e promover neles obediência e respeito (Cordasco, 1976). A influência foi tão duradoura que, por exemplo, o Reino Unido, somente proibiu os castigos corporais nas escolas em meados da década de 1980 (Ghandhi, 1984).

Do final do século 17 até o final do século 18, quando o Iluminismo trouxe a chamada Idade da Razão para a Europa e América, o que promoveu a revolução científica e uma ruptura com alguns dogmas, filósofos como o inglês John Locke e o francês Jean Jacques Rousseau discutiram como a educação deveria ser e como as crianças deveriam ser educadas (Ferrari & McBride, 2011; Schunk, 2012). 

Somente com o estabelecimento da psicologia moderna, no final dos anos 1800, a noção de unir as ciências do cérebro e da mente aplicada à educação começou a se tornar uma tendência. 

Psicólogos como Thorndike, Freud, Piaget, Vygotsky, Wallon, Pavlov e Skinner queriam compreender as características do processo de aprendizagem das crianças por meio da observação ou experimentação com o desenvolvimento e comportamento das crianças (e por meio de testes em animais).

Olhando para trás, podemos distinguir algumas teorias de aprendizagem muito influentes que têm suas origens na psicologia: 

Teorias de Aprendizagem

O que a Ciência pode nos dizer atualmente sobre a aprendizagem?

Todas essas teorias tiveram grande impacto na educação e são discutidas até hoje em programas de formação docente. No entanto, com a evolução das ciências cognitivas e o surgimento das áreas como a Ciência da Educação (Science of Learning – SoL), A Ciência da Mente, Cérebro e Educação (Mind, Brain, and Education – MBE), a Neuroeducação e a Psicologia da Educação, entre outras que compartilham muitas das mesmas premissas, algumas teorias clássicas perderam notoriedade e outras foram inclusive enquadradas na categoria de pseudociência (como o caso de diversas proposições de Freud). Isso não quer dizer que as contribuições citadas acima perderam totalmente seu valor.

Hoje em dia sabemos por exemplo que o sistema de recompensa do cérebro desempenha um papel fundamental na motivação e, portanto, na participação ativa dos alunos durante a aula. 

A neurociência entende a importância da dopamina e como ela está diretamente relacionada à busca por recompensas e à motivação. Novidade, gamificação e elogios são alguns dos elementos que estimulam o sistema de recompensa e, portanto, devem ser mais bem explorados em sala de aula (Howard-Jones et al. 2018)

A neurociência também já conhece a existência de um sistema de neurônios espelho, que é ativado quando observamos outras pessoas fazendo algo para que possamos entender as intenções uns dos outros e aprender. Literalmente aprendemos por observação e isso quer dizer que precisamos de interação social (Howard-Jones et al. 2018)

A neurociência não concorda com todas as proposições behavioristas, especialmente quando os processos biológicos internos são desconsiderados, contudo, a noção de potencialização de longa duração sugere que a repetição (principalmente a repetição espaçada) e a prática de lembrar são essenciais para a aprendizagem. 

Além disso, as emoções são igualmente importantes à cognição dos alunos. Crianças e adolescentes que não aprendem a lidar com as emoções ao longo de sua vida escolar, provavelmente terão uma jornada acadêmica com maiores dificuldades. Isso quer dizer que professores precisam levar as emoções dos seus alunos em consideração durantes as aulas (Tokuhama-Espinosa, 2014)

Processo de aprendizagem

Não existe uma fórmula única que consiga expressar como aprendemos. É muito mais complexo do que isso. No entanto, podemos dizer que a Ciência da Educação pode nos dar muitas pistas sobre o que deve ser essencial na aprendizagem. 

Para que nossos alunos aprendam, eles precisam estar motivados e atentos. Mas isso não é possível se suas necessidades humanas básicas não forem atendidas. Além disso, devemos estabelecer um bom relacionamento com eles e respeitar, ou pelo menos estar atentos, às suas emoções.

Também é necessário dar voz e escolha aos nossos alunos com certa frequência e isso implica em trabalhar com metodologias ativas. Eles devem ser capazes de nos ajudar a construir seu conhecimento para que seja relevante e aplicável em seu dia a dia. 

No entanto, a repetição é vital para realmente consolidar novas informações em seus cérebros e torná-las acessíveis no futuro. Mas o tipo certo de repetição, como revisões frequentes e a tentativa de lembrar os conteúdos com um certo espaçamento. O feedback deve estar presente sempre para que os alunos saibam se estão no caminho certo e quais ajustes precisam fazer. 

Vale lembrar que cada cérebro é único em sua constituição genética, conhecimento prévio, preferências e interesses. Cada um de nossos alunos é um ser singular e isso demanda diferenciação e personalização. Precisamos entender e abraçar as diferenças para desenharmos uma experiência de aprendizagem mais rica, diversa e, portanto, eficaz. 

Também podemos ensinar nossos estudantes a terem uma noção melhor sobre como eles aprendem e quais são as estratégias e atitudes mais eficientes. Podemos ensinar ideias como autoeficácia, autodeterminação, inteligência emocional, autorregulação, metacognição e mentalidade de crescimento.

Uma coisa é certa. A aprendizagem é um processo que depende de vários fatores e precisamos entender alguns princípios básicos de como aprendemos para alcançar os melhores resultados possíveis.

Uma ótima fonte de confiança é a Ciência da Educação, que se baseia nas ciências da mente e do cérebro, além das práticas pedagógicas de sucesso, e que oferece informações de qualidade para educadores em todos os níveis da educação. 

Outro recado importante é o seguinte: em tempos ensino remoto, insistir em manter modelos que não tem respaldo científico pode gerar resultados negativos para o processo de aprendizagem das crianças e adolescentes. Por isso precisamos buscar fontes confiáveis e escutar quem de fato entende do assunto.

Referências

Benson, H. (2000) Socratic Wisdom. Oxford: Oxford University Press.

Cordasco, F. (1976). A brief history of education: a handbook of information on Greek, Roman, medieval, Renaissance, and modern educational practice (No. 67). Rowman & Littlefield.

Ferrari, M., & McBride, H. (2011). Mind, Brain, and Education: The birth of a new science. Learning landscapes, 5(1), 85-100.

Howard-Jones P, Ioannou K, Bailey R, Prior J, Yau SH, Jay T. (2018). Applying the science of learning in the classroom. Impact: Journal of the Chartered College of Teaching. 

Ghandhi, S. (1984). Spare the rod: Corporal punishment in schools and the European Convention on Human Rights. International and Comparative Law Quarterly, 488-494.

Schunk, D. H. (2012). Learning theories an educational perspective sixth edition. Pearson.

Tokuhama-Espinosa, T. (2014). Making Classrooms Better: 50 Practical Applications of Mind, Brain, and Education Science. First Edition. New York: WW Norton & Company

Wagner, T., & Dintersmith, T. (2015). Most likely to succeed: Preparing our kids for the innovation era. Simon and Schuster

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