Como trabalhar a inteligência emocional nas crianças
Educação
ter mar 24
André Hedlund
André Hedlund

André Hedlund

Professor de inglês há mais de uma década, trabalho em diferentes escolas, universidades e em muitos negócios. Sou bacharel em Relações Internacionais e atualmente faço mestrado em Psicologia da Educação na Universidade de Bristol, Inglaterra, como Chevening Scholar. Trabalho como consultor acadêmico e instrutor de ensino da National Geographic Learning (conteúdo Nat Geo + TED Talks), também defendo a plataforma educacional online International Education and Resource Network (iEARN) e fui eleito o novo presidente da Partners of the Americas Goiás. Sou examinador de certificados de Michigan, membro do Grupo de Interesse Especial (SIG) da Mente, Cérebro e Educação do BRAZ-TESOL e sonho em mudar a educação em todo o mundo por meio dos conceitos dessa nova ciência.

André Hedlund

Como trabalhar a inteligência emocional nas crianças

Há exatamente 25 anos, o autor que se tornaria um best-seller mundial, Daniel Goleman, publicava o livro intitulado Emotional Intelligence. Esta obra vendeu milhões de cópias e foi traduzida para dezenas de idiomas justamente por tratar de um assunto tão relevante e relacionado a praticamente todas as áreas da vida humana: a capacidade de reconhecer e gerenciar as próprias emoções assim como as dos outros. No entanto, em tempos de suspensão de aulas e isolamento social, como trabalhar a inteligência emocional nas crianças?

Todos nós estamos passando por um momento bastante inusitado. A repentina transição de muitos para o home office, a demanda de criar novas dinâmicas de trabalho e estudo, além do distanciamento físico de pessoas queridas e a presença constante dos filhos em casa são mais do que bons motivos para desequilibrar nosso estado emocional. Contudo, as crianças e adolescentes podem vivenciar tudo isso de maneira mais intensa. Quantas vezes você já ouviu (ou até mesmo falou) que os jovens são impulsivos, negligentes e emotivos? Será que isso é só papo de gente adulta ou realmente existe alguma razão para as crianças serem assim?

Bem, razões existem. O aparente descontrole emocional e a impulsividade infantil têm muito a ver com uma região do cérebro chamada córtex pré-frontal, que começa seu desenvolvimento lá pela pré-adolescência e só acaba perto dos 30 anos (Arain et al. 2013). A boa notícia é que somos adolescentes até o fim da nossa segunda década de vida, mas a má notícia é que durante esse período de maturação cerebral não somos muito bons em gerenciar nossas emoções. Em outras palavras, quanto mais jovem, menos inteligência emocional nós temos.

O motivo da pouca inteligência emocional na infância é bem simples. Tem relação com a falta de desenvolvimento de uma das funções executivas centrais do nosso cérebro: o controle inibitório, responsável por impedir comportamentos impulsivos (Arain et al. 2013). Me lembro de assistir um quadro no Fantástico com a super prestigiada neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, explicando como devemos agir quando queremos que uma criança pare de fazer algo potencialmente perigoso. A cena era de uma criança em cima de um muro prestes a pular. Se gritarmos: “Não pule!”, é bem provável que a criança pule, quase como se o cérebro dela não conseguisse processar o NÃO.

Você se identifica com a cena descrita acima? Quantas vezes já tentamos impedir ou controlar um comportamento perigoso ou inapropriado de um aluno ou de nossos filhos resultando no exato oposto? O que devemos fazer então? Aqui vão algumas reflexões e dicas importantes:

  1. Trabalhe a inteligência emocional como qualquer outra habilidade. Tornar-se uma pessoa emocionalmente inteligente exige conscientização e prática. Ajude seu filho a refletir sobre suas emoções e a entender porque elas acontecem.
  2. Não promova a Síndrome do Imperador, como discute o psicoterapeuta Leo Fraiman (2019) no seu livro. Lembre-se que a vida é feita de êxitos e frustrações e que todos nós precisamos aprender a lidar com ambos. Se você satisfaz todos os desejos do seu filho e/ou o distrai de emoções negativas com presentes, jogos, viagens, etc., você está incapacitando o seu filho para uma vida funcional em sociedade agora e no futuro.
  3. Seja firme, porém justo com as suas determinações. As crianças desenvolvem a autorregulação emocional apoiadas na corregulação, ou seja, o estabelecimento e obediência de regras em conjunto (com os pais, cuidadores primários). Não se esqueça que os pequenos seguem o exemplo, logo, se você não tiver controle emocional na frente dos seus filhos, isso poderá impactar negativamente a vida deles.
  4. Use comandos afirmativos. Voltando ao exemplo do Fantástico, a nossa incrível neurocientista Suzana disse que a solução era simples: em vez de usar “Não pule!”, use “Pare!” ou “Volte”.
  5. Leve uma vida saudável. O exercício físico está associado com altos níveis de dopamina, o neurotransmissor da motivação (Howard-Jones et al. 2018). Inspire-se no artigo da Jucymar e movimente-se em casa com a criançada. Você também pode praticar a meditação. Leia o post da Marcela sobre mindfulness e use as técnicas durante o isolamento.

Por fim, eu gostaria apenas de citar, como um bom geek que eu sou, um filme que traz uma analogia pertinente. Já assistiram Capitã Marvel? Se ainda não viram, cuidado com os spoilers. Mas a aviadora Carol Danvers tem uma jornada interessante. O filme mostra as diversas vezes que ela caiu e levantou na vida e como ela sempre gostou de velocidade. A luta dela foi tentar se encaixar em um estereótipo masculino, considerado mais racional, mais frio e menos emotivo, para ocupar certos espaços, como o de pilotar jatos de guerra. Quando ela ganha seus poderes e se muda para o planeta dos Kree, uma raça alienígena poderosa, o seu instrutor militar diz a ela constantemente que ela precisa suprimir suas emoções para alcançar o seu potencial de combate. Porém, é somente quando ela se deixa levar pelas emoções, de maneira controlada, é claro, que ela atinge um poder fenomenal.

Acho que nós temos muito o que aprender com a Capitã Marvel. Afinal de contas, já diziam o neuropsicólogo José Ramón Gamo e os autores de “We feel, therefore we learn” (Sentimos, logo aprendemos), António Damásio e Mary Helen Immordino-Yang, que o cérebro precisa da conexão corpo-mente-emoção para aprender. As emoções, positivas e negativas, são bem-vindas, só precisamos aprender como ter inteligência emocional para reconhecer e gerenciar nossas emoções, identificar o que os outros estão sentindo e ter mais empatia com aqueles que vivem ao nosso redor. Assim seremos capazes de guiar as crianças no desenvolvimento de sua própria inteligência emocional.

Recomendo que todos nós usemos esse período da crise do coronavírus para refletir sobre o tipo de pessoas que estamos criando para o mundo. Um recado do fundo do coração: treine a sua empatia com o professor e a professora dos seus filhos. Se vocês que são pais estão tendo dificuldade com o controle emocional e comportamental dos seus filhos nesse período de isolamento, imaginem o que nós professores passamos em sala de aula com 10, 20, ou 30 crianças. Por isso, vamos cultivar a inteligência emocional das crianças e criar adultos saudáveis e funcionais, que pensam não só em si mesmos, mas, também, nos outros e que conseguem gerenciar suas emoções para alcançar suas metas. Quem sabe, se nós tivéssemos desenvolvido nossa inteligência emocional ao longo da vida, não estaríamos lidando com essa crise mais facilmente?

Confira também as dicas especiais da semana socioemocional do Edify em parceria com o LIV – Laboratório da inteligência de Vida:

Questão-Ansiedade: Crie uma rotina de “how are you feeling today” (como você está se sentindo hoje?) ao começo e ao final do dia para que o seu filho possa expor seus sentimentos. É importante pontuar para as crianças que os sentimentos podem ser compartilhados a qualquer momento do dia, afinal, pode ser difícil segurar uma tristeza até o final do dia. Caso isso interfira no momento de trabalho em casa, por exemplo, pode-se criar uma “safe word” (palavra-de segurança) sinalizando que a criança tem algo de seus sentimentos a ser compartilhado que não pode esperar. Importante ressaltar: o mesmo vale para os adultos! Se a criança estiver em meio a uma brincadeira, mas os responsáveis precisarem conversar sobre algo de seus sentimentos, vale fazer uso da palavra-chave também!

Questão-Preguiça: Crie desafios diários para começar o dia, como o “word of the day”. Escolha uma palavra em inglês no dicionário e a cada dia vocês devem criar 3 frases novas com ela. Que tal transformar os cuidados da casa nesses desafios diários? Em português ou inglês as tarefas são as mesmas e sabemos que, em tempos de isolamento com todos juntos em uma mesma casa, é difícil deixar as relações harmônicas o tempo todo. Nisso, cada um precisa fazer a sua parte, adultos e crianças. Uma dos lados mais desgastantes da rotina pode ser o cuidado da casa. Assim, transformando em brincadeira, trabalhando a responsabilidade das crianças e propor um novo desafio: escolher em inglês funções da casa que sejam da criança no dia e elaborar frases em inglês com elas, para contar um pouquinho da sua rotina (ex: fazer a cama, lavar e guardar a louça, tirar o lixo, alimentar o cachorro, arrumar os brinquedos).


Questão-Saudade: Marque horários além das aulas para reunir os amigos em aplicativos de conversa e divirta-se em sites de adivinhar o desenho em inglês! Para matar a saudade, a criança pode se reunir no final do dia com os amigos em videochamada e jogar. Como não sabemos os níveis de segurança (de dados ou mesmo de quem pode participar dessas conversas) ao invés jogar pelo site, os pequenos podem jogar STOP no próprio papel em uma videochamada fechada.

Referências 

Arain, M., Haque, M., Johal, L., Mathur, P., Nel, W., Rais, A., Sandhu, R., & Sharma, S. (2013). Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatric disease and treatment, 9, 449–461. https://doi.org/10.2147/NDT.S39776

FRAIMAN, Leo. A síndrome do imperador: Pai empoderados educam melhor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019

Goleman, D. (1996). Emotional intelligence: Why it can matter more than IQ. Bloomsbury Publishing.

Immordino‐Yang, M. H., & Damasio, A. (2007). We feel, therefore we learn: The relevance of affective and social neuroscience to education. Mind, brain, and education, 1(1), 3-10.

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