Os desafios on-line e a tênue rede de proteção que precisamos fortalecer
Educação
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Ana Rosa Airão
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Os desafios on-line e a tênue rede de proteção que precisamos fortalecer

Ainda me surpreendo como a cada dia surgem novos perigos on-line para crianças e adolescentes, sem que criemos na mesma velocidade uma rede de proteção boa. Entre os jogos-desafios que oferecem riscos, há os mais divulgados, como Baleia Azul e Momo, e outros que voltam a ganhar manchetes quando surgem novas vítimas fatais, como grooming, choking game, balconing, planking, sexting, entre tantos outros.

Não consigo pensar neste tema sem lembrar de Chapeuzinho Vermelho e da conexão quase literal da história com o que vivemos no mundo virtual. Uma grande floresta de mídias, vídeos, sites e games onde crianças, às vezes muito pequenas, e adolescentes se aventuram para chegar a um lugar de conforto e aparente segurança: um grupo, uma tribo online, uma comunidade de games.

Nesse contexto também identificamos os predadores assumindo uma aparência gentil e inofensiva, aguardando para conseguir dados, aliciar e devorar. Muito fácil criticar o cuidador, que na história manda uma menina ingênua atravessar uma floresta sozinha e exposta ao lobo, quando não enxergamos que isso acontece rotineiramente no mundo virtual.

Como fortalecer a tênue rede de proteção de nossas crianças e adolescentes? Este texto, obviamente, não tem a menor pretensão de esgotar o tema, mas de compartilhar algumas reflexões.

Os desafios on-line e a tênue rede de proteção que precisamos fortalecer

O Efeito Werther

A associação entre os efeitos de mídias e comportamento social não é novidade. Uma das descrições mais antigas sobre o tema surgiu com o romance alemão Os Sofrimentos do Jovem Werther,  de Goethe, em 1774. A história fala do jovem Werther que se suicida com um tiro após uma rejeição amorosa. Logo após a publicação do romance surgiram vários relatos de jovens usando o mesmo método para se suicidarem. O livro acabou sendo banido de diversas cidades da Europa. 

O efeito Werther refere-se ao efeito gatilho que um suicídio amplamente divulgado pode ter, servindo de estímulo e contágio para desencadear acontecimentos semelhantes. Este termo surgiu em 1974, quando David Phillips e colegas descobriram que suicídios e acidentes podem crescer depois de receberem bastante publicidade. Existe uma tendência a um impacto maior em pessoas que são do mesmo gênero e faixa etária daquele que cometeu o ato.

Trailer oficial da série da Netflix Os Treze Porquês

Após o lançamento da série “13 Reasons Why”, em março de 2017, a Netflix recebeu críticas de organizações de prevenção do suicídio que alertavam para o possível contágio em razão da exploração e representação do suicídio, embora não tenham apresentado análises estatísticas sobre essa hipótese.

Em 29 de maio de 2019, o JAMA (Journal of the American Medical Association), um dos jornais médicos mais conceituados do mundo, publicou artigo intitulado: “Association of Increased Youth Suicides in the United States With the Release of 13 Reasons Why”. Os autores da pesquisa analisaram dados sobre suicídio para as faixas etárias de 10 a 19 anos, 20 a 29 anos e 30 anos ou mais para homens e mulheres nos EUA.

Os dados indicaram aumento dos casos na faixa etária de 10 a 19 anos, com intensidade maior em mulheres, no período de mais interesse do público sobre o assunto (pesquisado em mídias sociais, o interesse público na série  foi maior em abril e maio de 2017). Os próprios autores destacam que deve haver cuidado na interpretação desses achados, no entanto acrescentam que o aumento do suicídio apenas na juventude parece consistente a partir da disseminação do tema na mídia. 

Campanha Netflix contra o suicídio

Como a neurociência pode nos ajudar?

Quando se trata de crianças, mesmo com alertas e explicações sobre os perigos, precisamos manter supervisão constante e atenta. Entretanto, como entender os adolescentes que dominam facilmente a tecnologia e, mesmo sabendo de tudo isso, ainda se expõem e se tornam vítimas em potencial?

Nos últimos anos, nosso conhecimento sobre a neurobiologia aumentou consideravelmente. Agora é possível realizar exames como a ressonância magnética sem risco da radiação e acompanhar o desenvolvimento cerebral em tempo real. Na medida em que uma determinada área cerebral amadurece saudavelmente, o indivíduo apresenta comportamentos correspondentes àquela área madura, desde que tal função receba o estímulo adequado.

O lobo frontal é responsável pelo planejamento, organização e execução do movimento, mas também, em sua área pré-frontal, pela atenção, controle de impulsos e outros aspectos das funções executivas. A área motora é uma das primeiras a amadurecer e isto se expressa na capacidade de andar, correr e pular que surge rapidamente nos primeiros anos de vida, porém a área pré-frontal pode amadurecer até os 25 anos de vida.

Essas informações podem contribuir para nossa compreensão sobre alguns aspectos do comportamento adolescente. A plasticidade do cérebro humano, em especial no período da adolescência, faz dessa uma época de grandes riscos e oportunidades.

Redes neurais responsáveis por controle de impulsos, capacidade de avaliação, julgamento e tomada de decisões estão em processo de amadurecimento. Isto nos alerta que só a informação não é suficiente para evitar decisões perigosas para a segurança dos jovens, mas que eles precisam de treinamento, acompanhamento e companheirismo no desenvolvimento destas habilidades, incluindo o aventurar-se de forma cada vez mais segura nas redes sociais.

Não podemos trocar toda a complexidade do comportamento humano apenas por descrições da neurobiologia, mas precisamos cada vez mais costurar estes conhecimentos com os contextos sociais e culturais para podermos efetivamente fortalecer nossas crianças e adolescentes frente aos desafios contemporâneos.

Por exemplo: uma exposição a situações complexas de tomada de decisões pode ajudar um cérebro adolescente a amadurecer mais rapidamente o córtex pré-frontal? Considerando a influência do ambiente e o papel da experiência no desenvolvimento cerebral isso seria possível.

Estudos sobre o tema estão em andamento e, caso essas expectativas se confirmem, nos levarão cada vez mais a olhar a estrutura cerebral como fruto do conjunto biológico que sofre mudanças pelo papel ativo que o comportamento individual e o ambiente exercem. 

Quando Chapeuzinho decide não ser vítima

Alicia Kozakiewicz, aos 13 anos, se tornou uma das primeiras vítimas de sequestro de crianças relacionada à Internet. Em janeiro de 2002, Alicia  foi sequestrada após um ano de grooming on-line por alguém que dizia ser um adolescente. O homem, na verdade de 38 anos, a convenceu a encontrá-lo e a raptou, a levando para uma casa onde ela foi mantida em cativeiro e acorrentada numa espécie de masmorra.

Libertada pelo FBI, passou por estresse pós-traumático e perdeu parte das memórias de sua infância. Após um ano de tratamento, e com apenas 14 anos de idade, Alicia decidiu que não seria definida pelo seu trauma e fundou The Alicia Project em que, além de compartilhar sua história e esclarecer pais e crianças sobre os perigos do mundo virtual, mobilizou a sociedade americana para a criação de leis e projetos para coibir os crimes contra crianças na internet.

Hoje ela é psicóloga forense, palestrante, internacionalmente reconhecida, especialista em segurança da Internet, autora, atriz e continua lutando contra cybercrimes (crimes que acontecem através da internet), tráfico de pessoas e exploração sexual de crianças. 

Os desafios on-line e a tênue rede de proteção que precisamos fortalecer

Rede de proteção: Um momento de reflexões

O que nós, como educadores, podemos fazer para não ficarmos apenas elencando informações sobre perigos e assédio? Como efetivamente devemos acompanhar nossos alunos e filhos nesta perigosa floresta e auxiliá-los a serem mais habilidosos para identificar e se proteger dos perigos do caminho? Como podemos criar uma rede de proteção efetiva e não limitadora?

Para crianças, algumas atitudes que podemos tomar a fim de diminuir os riscos no ambiente virtual são: instalar aplicativos de controle em celulares e computadores, não deixar que elas tenham perfil em redes sociais e evitar postar fotos. Quanto aos adolescentes, palestras e filmes sobre o assunto ajudam, mas por si só não são suficientes para proteger e, em algumas vezes podem agravar situações.

Pensar atividades em ambientes controlados, talvez com simulação de situações, jogos que desenvolvam habilidades de tomada de decisão, jogos teatrais, enfim, estratégias novas para novos desafios. 

Mesmo com toda a evolução tecnológica que ocorreu entre a publicação do romance de Goethe e as séries por assinatura da atualidade, ainda mantemos nossa vulnerabilidade e existem muitas lacunas a serem preenchidas.

Além do ambiente físico, é importante estar junto aos jovens no ambiente virtual e entender seu funcionamento. Acompanhar atentamente o desenvolvimento, criando um ambiente de afeto e confiança, nunca ficará ultrapassado.

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