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O que é educação socioemocional e como adotá-la na sua escola

A educação socioemocional é um assunto que vem sendo discutido pelos especialistas do ramo educacional há um bom tempo e esse conceito vem sendo cada vez mais inserido dentro do ambiente escolar. Há alguns anos, ouvíamos muito a seguinte frase “a família educa e a escola ensina”. A partir disso, podíamos perceber uma clara divisão de funções no processo de aprendizagem.

Partindo deste princípio, a criança já devia vir de casa “educada”, ou seja, pronta para a convivência com outras pessoas, pronta para se comportar adequadamente nos mais diversos ambientes. A escola, nesse caso, seria responsável apenas pelo ensino do conteúdo.

Atualmente, muitos esforços têm sido feitos para que o papel de “educar” seja dividido entre a escola e a família. Um deles é a contemplação desse tópico pela BNCC, que busca integrar a educação socioemocional à aquisição das competências e habilidades que o documento preconiza.

Continue lendo para saber mais sobre esse assunto tão importante para o contexto de formação das nossas crianças aqui no blog do Edify.

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O que é educação socioemocional segundo os estudiosos

A educação socioemocional é um processo ou prática de ensino-aprendizagem que tem por objetivo unir a aquisição de competências e habilidades que extrapolam o fator cognitivo. Sendo assim, o foco desse método é habilitar os alunos a desenvolverem suas emoções e gerenciá-las de forma autônoma e saudável.

Alguns educadores como Comênio, Pestalozzi e Montessori proclamavam há muito tempo que devemos educar nossas crianças de forma holística, ou seja, considerando seu desenvolvimento cognitivo, suas emoções e estilos. Contudo, era notável essa crença de que a função da escola era pura e simplesmente ensinar o conteúdo para que o aluno conseguisse ingressar em uma boa faculdade e, posteriormente, encontrar um trabalho bem remunerado.

Na prática, sempre foi possível perceber quando crianças estão passando por algum estresse emocional, pois isso acaba gerando baixo desempenho escolar e dificuldades no manejo de suas emoções e relações pessoais. No entanto, essas situações eram tratadas com as famílias, para que elas resolvessem e entregassem o aluno pronto para frequentar a escola.

A questão é que a criança não é um ser compartimentado e ponto final. Ela, como qualquer ser humano, passa por transformações e não apresenta comportamentos e emoções fixas. Aluno, filho ou o irmão são a mesma pessoa, que passa pelas mesmas situações, não há compartimentabilidade. Ela é tudo isso ao mesmo tempo e cada um desses papéis interfere nos outros.

Dessa forma, cada indivíduo precisa aprender a lidar com as emoções do papel de filho ou irmão, por exemplo, que podem interferir no papel aluno e vice-versa. A partir daí, podem surgir questionamentos sobre como esse equilíbrio é feito e se é possível ensinar sobre emoções. A resposta para ambas as perguntas é sim, por meio da educação socioemocional.

Surgimento da educação socioemocional

O termo “aprendizagem socioemocional” e seus primeiros fundamentos tiveram origem no ano de 1994, nos Estados Unidos, com a criação do CASEL — Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning — que, livremente traduzido, seria Colaboração para Aprendizagem Acadêmica, Social e Emocional. De acordo com o CASEL:

“o aprendizado socioemocional (SEL — Social Emotional Learning) é uma parte integral da educação e do desenvolvimento humano. O aprendizado socioemocional é o processo pelo qual todas as pessoas jovens e adultos adquirem e aplicam o conhecimento, as habilidades e atitudes para desenvolverem identidades saudáveis, administrar emoções e alcançar metas pessoais e coletivas, sentir e demonstrar empatia pelos outros, estabelecer e manter relações solidárias e tomar decisões responsáveis e cuidadosas.”

Portanto, o ensino que se pauta nesses preceitos proporciona equidade e poder às crianças à medida em que uma parceria entre família, escola e comunidade é estabelecida. E tal união promove experiências e espaço para que relações de confiança sejam criadas.

Em ambientes em que há essa interconexão, existe um solo fértil para que sejam ofertadas experiências de aprendizagem plenas em consonância com comunidades mais saudáveis, seguras e justas para crianças e adolescentes. Segundo CASEL, investir em educação socioemocional traz benefícios não apenas no desenvolvimento dessas competências, mas também no desempenho escolar de modo geral e na construção e manutenção de uma sociedade mais civilizada e empática.

Inteligência emocional: preceitos e desenvolvimentos

Em 1995, Daniel Goleman, o “pai” da inteligência emocional, trouxe vários insights e dados sobre esse assunto, transformando a visão da comunidade de profissionais educacionais sobre o conceito de inteligência. Em seu livro “Inteligência Emocional”, o estudioso faz análises sobre o que consideramos inteligência.

Goleman afirma que, o QI — Quociente Intelectual — representa apenas 20% das aptidões necessárias para se tornar uma pessoa bem sucedida e os outros 80% restantes são formados por diferentes fatores da Inteligência Emocional que, juntos, formam o QE, que é definido como o Quociente Emocional.

Quem nunca ouviu dizer que as pessoas são contratadas por suas competências técnicas e demitidas por causa das competências emocionais? No tocante a isso, o autor destaca os pilares que formam a Inteligência Emocional: autoconhecimento, gestão das emoções, empatia e sociabilidade.

Esses quatro pilares estão interligados e são complementares. Com o primeiro, é possível conhecer e compreender suas emoções, para que, dessa forma, você possa desenvolver o manejo consciente delas, evitando reações automáticas e tornando suas interações sociais muito mais empáticas.

Perspectivas

Em 1996, o desenvolvimento socioemocional foi tratado pela UNESCO, no Relatório Delors. Esse relatório foi elaborado pelo filósofo francês Jacques Delors e foca os desafios para a educação no século XXI. O filósofo desenvolveu o conceito de quatro pilares da educação, que trata de quatro aprendizagens fundamentais. São eles:

  • aprender a conhecer;
  • aprender a fazer;
  • aprender a conviver; e
  • aprender a ser.

Já na BNCC, as competências socioemocionais permeiam o desenvolvimento das 10 competências gerais. Dessa forma, até 2020, todas as escolas tiveram que implementar métodos que exploram a educação socioemocional em seus currículos e acabou por se mostrar ser um grande desafio para as equipes pedagógicas e professores.

Como implementar a educação socioemocional na escola?

Um trabalho completo e que realmente alcance os objetivos propostos no que tange ao desenvolvimento das crianças e adolescentes para além do cognitivo precisa começar na formação dos professores. Pois, para que tenhamos profissionais capazes de guiar os alunos em suas descobertas e construções, é fundamental prover ferramentas para tanto.

É importante lembrar que, além desses adultos serem modelos para os alunos, não é possível ensinar ou transmitir algo que não nos é familiar. Na Base Nacional Comum Para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica — a BNC-Formação — homologada em 2019, encontramos dentre as competências gerais dos docentes, a seguinte:

“[…] conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana, reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas, desenvolver o autoconhecimento e o autocuidado nos estudantes”.

Portanto, as escolas devem fornecer uma rede de apoio para os professores, juntamente com atividades e iniciativas que os ajudem a lidar com suas próprias emoções. Com isso em mente, trouxemos algumas soluções que podem trazer essa prática para a realidade da sala de aula.

Promoção da educação socioemocional

A base para que os objetivos da inclusão socioemocional sejam alcançados é a integração e desenvolvimento de abordagens coordenadas entre sala de aula, escola, famílias e comunidade. Assim, os estudantes terão oportunidades de desenvolver e aplicar suas competências socioemocionais no dia-a-dia.

Portanto, atividades que envolvam as famílias e a comunidade são fundamentais para a criação de cidadãos pró-sociais. Além disso, a análise de dados para que haja melhoria contínua do processo.

Sem uma avaliação dos passos e resultados, podemos considerar, ainda que erroneamente, que estamos oferecendo um aprendizado socioemocional de qualidade quando, no entanto, estamos oferecendo atividades que não trarão nenhum benefício para o aluno.

Fórum Nacional ANEC e suas contribuições

Nessa consonância, a ANEC, Associação Nacional de Educação Católica do Brasil, organiza anualmente um evento que reúne nomes relevantes de diversas áreas do país atuando em prol da excelência na qualidade de ensino. O Fórum Nacional da Educação Católica oferece palestras e salas temáticas para o compartilhamento de informações e insights entre os participantes.

Participar de ações como essas contribui para a fundamentação de conhecimentos e estratégias que geram resultados práticos e furtíferos para as escolas e seus estudantes.

Intencionalidade Educativa

Complementando os quatro pilares sugeridos por CASEL, apontamos aqui algumas ações importantes no aprendizado socioemocional. Em primeiro lugar, ressaltamos que a criação de um vínculo entre alunos e professor fará toda a diferença. Uma relação de confiança, respeito e sentimento de pertencimento trará muitos benefícios para a ação em grupo.

Seguindo esse pensamento, a intencionalidade educativa deve ser levada em consideração. O professor precisa ter clareza dos objetivos de cada atividade. Só assim, ele conseguirá um maior engajamento dos alunos e, por consequência, um resultado positivo.

Além disso, aprendizagens que transcendam a sala de aula vão favorecer uma reflexão por parte do aluno sobre o que está sendo realizado e dito. Outro ponto importante é a escolha de situações de aprendizagem adequadas ao nível dos alunos. O educador deve favorecer a autoestima dos alunos e por isso, as atividades/situações devem ser desafiadoras o suficiente para tal e causarem sentimento de capacidade aos alunos.

Além disso, um clima escolar de respeito, colaboração e de valorização da importância de aprendermos a lidar com nossas emoções é fundamental. Assim, as atividades devem ser seguidas de reflexão e ação para se fazer os ajustes necessários, tanto por parte do professor quanto dos alunos.

E qual o tipo de atividade pode ser desenvolvido para um bom trabalho socioemocional? O mindfulness é uma delas e tem sido uma prática cada vez mais difundida. Mindfulness ou atenção plena é uma prática que nos ajuda a focar o momento presente, seja por meio de exercícios de respiração ou atenção aos seus pensamentos ou ao que está ao seu redor no momento presente.

A prática do mindfulness está associada a mudanças neuroplásticas no córtex cingulado anterior, ínsula, na junção têmporo-parietal, na rede límbico-frontal e estruturas em rede de modo predefinido. Esses mecanismos agem de forma sinérgica e criam um processo de autorregulação aprimorado.

Estudos comparando a morfometria da massa cinzenta no cérebro de pessoas que meditam com frequência e grupos de controle comprovam que pessoas que meditam apresentam um aumento na concentração da massa cinzenta na parte anterior direita da ínsula (Hölzel et al., 2008), bem como um espessamento expressivo do córtex (Lazar et al., 2005) .

Essa prática mostra-se muito eficiente para todas as faixas etárias, inclusive crianças bem pequenas. Colocar um bicho de pelúcia sobre a barriguinha da criança e pedir que ela observe o movimento que ele faz quando ela respira, ajuda a criança a se concentrar no momento presente e se acalmar.

Atividades que envolvam colaboração, argumentação e negociação são também muito benéficas para ajudarem os alunos a lidarem com a autorregulação. O aspecto mais importante é o professor ter a intencionalidade de cada atividade bem clara para que a aprendizagem socioemocional aconteça.

Podemos concluir que muito mais do que conhecimento, o cidadão do século XXI precisa saber ser e saber conviver para tornar suas relações mais frutíferas e respeitosas para, assim, termos um mundo mais empático e justo. E tudo isso pode ser alcançado por meio de um trabalho de educação socioemocional consistente e planejado.

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Referências bibliográficas

BNCC, Competências socioemocionais como fator de proteção à saúde mental e ao bullying . MEC. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/implementacao/praticas/caderno-de-praticas/aprofundamentos/195-competencias-socioemocionais-como-fator-de-protecao-a-saude-mental-e-ao-bullying Acesso em: 30 abr. 2021

Systemic Implementation. CASEL, Disponível em: https://casel.org/theory-of-action/ Acesso em: 29 abr. 2021

COMENIUS, Johann Amos. Orbis Sensualium Pictus: Hoc est: Omnium fundamentalium in mundo rerum, & in vita actionum, Pictura & Nomenclatura. Endter, 1730.

KOLLER, Sílvia H. Educação para pró-sociabilidade: uma lição de cidadania?. Paideia (Ribeirão Preto), n. 12-13, p. 39-50, 1997.

HÖLZEL, Britta K. et al. How does mindfulness meditation work? Proposing mechanisms of action from a conceptual and neural perspective. Perspectives on psychological science, v. 6, n. 6, p. 537-559, 2011.

MEC, RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 2, DE 20 DE DEZEMBRO DE 2019. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2019-pdf/135951-rcp002-19/file Acesso em: 28 abr. 2021

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