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Educação socioemocional: o que é e como adotar na sua escola

  • Práticas Pedagógicas

Há alguns anos, ouvíamos muito a seguinte frase “a família educa e a escola ensina”. Com essa frase, podíamos perceber uma clara divisão de funções no processo de aprendizagem de nossas crianças. Partindo deste princípio, a criança já devia vir de casa “educada”, ou seja, pronta para a convivência com outras pessoas, pronta para se comportar adequadamente nos mais diversos ambientes.

A escola, nesse caso, seria responsável apenas pelo ensino do conteúdo. Mesmo sabendo que alguns educadores como Comênio, Pestalozzi e Montessori já proclamavam que devemos educar nossas crianças de forma holística, ou seja, considerando seu desenvolvimento cognitivo, suas emoções e estilos, era notável essa crença de que a função da escola era pura e simplesmente ensinar o conteúdo para que o aluno conseguisse ingressar em uma boa faculdade e, posteriormente, encontrar um trabalho bem remunerado. 

Na prática, sempre foi possível perceber que a criança que está passando por algum estresse emocional, acaba apresentando um desempenho acadêmico abaixo do esperado e apresenta dificuldades no manejo de suas emoções e relações pessoais. No entanto, essas situações eram tratadas com as famílias, para que elas resolvessem e entregassem o aluno pronto para frequentar a escola. A questão é que a criança não é um ser compartimentado e pronto. Ela, como qualquer ser humano, passa por transformações e não apresenta comportamentos e emoções fixas. 

Ela não é em um momento aluno, em outro filho, em outro irmão. Ela é tudo isso ao mesmo tempo e, cada um desses papéis interfere nos outros. Assim, ela precisa aprender a lidar com as emoções do filho ou irmão, que podem interferir no aluno e vice-versa. E como isso é feito? É possível ensinar sobre emoções? Sim, através da educação socioemocional.

A educação socioemocional surgiu em 1994 nos Estados Unidos, com a criação do CASEL (Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning). De acordo com o CASEL: 

“o aprendizado socioemocional (SEL- Social Emotional Learning) é uma parte integral da educação e do desenvolvimento humano.  O aprendizado socioemocional é o processo pelo qual todas as pessoas jovens e adultos adquirem e aplicam o conhecimento, as habilidades e atitudes para desenvolverem identidades saudáveis, administrar emoções e alcançar metas pessoais e coletivas, sentir e demonstrar empatia pelos outros, estabelecer e manter relações solidárias e tomar decisões responsáveis e cuidadosas.”

casel.org

A educação socioemocional proporciona equidade e poder às crianças na medida em que uma parceria entre família, escola e comunidade é estabelecida. Essa parceria promove experiências e espaço para que relações de confiança sejam criadas e assim, oferecermos uma experiência de aprendizagem plena e comunidades mais saudáveis, seguras e justas para essas crianças. 

Segundo CASEL, investir em educação socioemocional traz benefícios não apenas no desenvolvimento dessas competências, mas também no desempenho escolar de modo geral e na construção e manutenção de uma sociedade mais civilizada e empática. 

Inteligência emocional

Em 1995, Daniel Goleman, o “pai” da inteligência emocional, trouxe vários insights e dados sobre esse assunto e transformou a visão sobre o conceito de inteligência. No seu livro “Inteligência Emocional”, Goleman afirma que o QI (quociente intelectual) representa apenas 20% das aptidões necessárias para se tornar uma pessoa bem sucedida e os outros 80% restantes são formados por diferentes fatores da Inteligência Emocional que, juntos, formam o QE (quociente emocional). 

Quem nunca ouviu dizer que as pessoas são contratadas por suas competências técnicas e demitidas por causa das competências emocionais? Goleman destaca os pilares que formam a Inteligência Emocional: autoconhecimento, gestão das emoções, empatia e sociabilidade. Esses quatro pilares estão interligados e são complementares. Com o autoconhecimento, você conhece e compreende suas emoções, para que possa desenvolver o manejo consciente delas, evitando reações automáticas e tornando suas interações sociais muito mais empáticas. 

A seguir, em 1996, o desenvolvimento socioemocional foi tratado na UNESCO, no Relatório Delors. Esse relatório foi elaborado pelo filósofo francês Jacques Delors e foca nos desafios para a educação no século XXI. Delors desenvolveu o conceito de quatro pilares da educação, quatro aprendizagens fundamentais. 

São eles: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.  Na BNCC, as competências socioemocionais estão presentes nas 10 competências gerais. Dessa forma, até 2020, todas as escolas tiveram que contemplar as competências socioemocionais em seus currículos e isso tem-se mostrado um grande desafio.  

Mas como implementar a educação socioemocional na escola? Em primeiro lugar, é importante levar em consideração estes quatro elementos-chave que norteiam a implementação e a sustentabilidade da educação socioemocional, de acordo com CASEL:

  1. A construção de um plano de apoio, no qual se tenha uma visão coletiva e planejamento para o aprendizado socioemocional. O engajamento de todos é essencial para o sucesso desse aprendizado. A comunidade como um todo precisa ter clareza da importância da educação socioemocional ou podemos ter sabotadores do processo. Um momento de sensibilização e reflexão é de grande valia para promover o envolvimento de todos.
  2. O fortalecimento das competências socioemocionais dos adultos através de uma comunidade capaz de melhorar suas competências profissionais, emocionais, culturais e sociais e também a capacidade deles de levar a educação socioemocional para os alunos. É importante lembrar que esses adultos serão modelos para os alunos e, assim, precisam ter suas habilidades socioemocionais bem desenvolvidas.
    • Na Base Nacional Comum Para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-FORMAÇÃO, 2019) encontramos dentre as competências gerais dos docentes, a seguinte “conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana, reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas, desenvolver o autoconhecimento e o autocuidado nos estudantes”.
    • Portanto, uma rede de apoio para os professores e atividades que os ajudem a lidar com suas próprias emoções são muito importantes.
  3. A promoção da educação socioemocional para os alunos através do desenvolvimento de abordagens coordenadas entre sala de aula, escola, famílias e comunidade. Assim os estudantes terão oportunidades de desenvolver e aplicar suas competências socioemocionais no dia-a-dia. Desse modo, atividades que envolvam as famílias e a comunidade são fundamentais ou corre-se o risco de o aprendizado socioemocional ser mais uma disciplina e não atingir seu objetivo maior, que é criar cidadãos pró-sociais.
  4. A análise de dados para que haja melhoria contínua do processo. Sem uma avaliação dos passos e resultados, podemos achar erroneamente que estamos oferecendo um aprendizado socioemocional de qualidade quando, no entanto, estamos oferecendo atividades que não trarão nenhum benefício para o aluno.

Complementando os quatro pilares sugeridos por CASEL, apontamos aqui algumas ações importantes no aprendizado socioemocional. Em primeiro lugar, ressaltamos que a criação de um vínculo entre alunos e professor fará toda a diferença. Uma relação de confiança, respeito e sentimento de pertencimento trará muitos benefícios para a ação em grupo. 

Intencionalidade Educativa

Em segundo lugar, a intencionalidade educativa deve ser levada em consideração. O professor precisa ter clareza dos objetivos de cada atividade. Só assim, ele conseguirá um maior engajamento dos alunos e, por consequência, um resultado positivo.  

Além disso, aprendizagens que transcendam a sala de aula vão favorecer uma reflexão por parte do aluno sobre o que está sendo realizado e dito. Outro ponto importante é a escolha de situações de aprendizagem adequadas ao nível dos alunos. O educador deve favorecer a autoestima dos alunos e por isso, as atividades/situações devem ser desafiadoras o suficiente para tal e causarem sentimento de capacidade aos alunos. 

Além disso, um clima escolar de respeito, colaboração e de valorização da importância de aprendermos a lidar com nossas emoções é fundamental. Assim, as atividades devem ser seguidas de reflexão e ação para se fazer os ajustes necessários, tanto por parte do professor quanto dos alunos.

E qual o tipo de atividade pode ser desenvolvido para um bom trabalho socioemocional? O mindfulness é uma delas e tem sido uma prática cada vez mais difundida. Mindfulness ou atenção plena é uma prática que nos ajuda a focar no momento presente, seja através de exercícios de respiração ou atenção aos seus pensamentos ou ao que está ao seu redor no momento presente. 

A prática do mindfulness está associada a mudanças neuroplásticas no córtex cingulado anterior, ínsula, na junção têmporo-parietal, na rede límbico-frontal e estruturas em rede de modo predefinido. Esses mecanismos agem de forma sinérgica e criam um processo de autorregulação aprimorado. 

Estudos comparando a morfometria da massa cinzenta no cérebro de pessoas que meditam com frequência e grupos de controle comprovam que pessoas que meditam apresentam um aumento na concentração da massa cinzenta na parte anterior direita da ínsula (Hölzel et al., 2008), bem como um espessamento expressivo do córtex (Lazar et al., 2005) .

Essa prática mostra-se muito eficiente para todas as faixas etárias, inclusive crianças bem pequenas. Colocar um bicho de pelúcia sobre a barriguinha da criança e pedir que ela observe o movimento que ele faz quando ela respira, ajuda a criança a se concentrar no momento presente e se acalmar

Atividade que envolvam colaboração, argumentação e negociação são também muito benéficas para ajudarem os alunos a lidarem com a autorregulação. O aspecto mais importante é o professor ter a intencionalidade de cada atividade bem clara para que a aprendizagem socioemocional aconteça.

Podemos concluir que muito mais do que conhecimento, o cidadão do século XXI precisa saber ser e saber conviver para tornar suas relações mais frutíferas e respeitosas, e assim, termos um mundo mais empático e justo. E tudo isso pode ser alcançado através de um trabalho de educação socioemocional consistente e planejado.

Referências:

BNCC, Competências socioemocionais como fator de proteção à saúde mental e ao bullying . MEC. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/implementacao/praticas/caderno-de-praticas/aprofundamentos/195-competencias-socioemocionais-como-fator-de-protecao-a-saude-mental-e-ao-bullying   Acesso em: 30 abr. 2021

CASEL, SEL: our theory of action for effective implementation Disponível em: https://casel.org/theory-of-action/ Acesso em: 29 abr. 2021

Silvia H. Koller. Educação para pro-sociabilidade: uma lição de cidadania? Ribeirão Preto. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X1997000100004 Acesso em: 28 abr. 2021

LAZAR, SARA W. et al.How Does Mindfulness Meditation Work? Proposing Mechanisms of Action From a Conceptual and Neural Perspective Disponível em: How Does Mindfulness Meditation Work? Proposing Mechanisms of Action From a Conceptual and Neural Perspective – Britta K. Hölzel, Sara W. Lazar, Tim Gard, Zev Schuman-Olivier, David R. Vago, Ulrich Ott, 2011 (sagepub.com)   Acesso em: 8 jan.2021

MEC, RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 2, DE 20 DE DEZEMBRO DE 2019. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2019-pdf/135951-rcp002-19/file Acesso em: 28 abr. 2021

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