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Aprendendo inglês por meio da atividade física

  • Bilinguismo

Estudos na área da Neurociência e das Ciências Cognitivas trouxeram novas reflexões acerca da relação mente-corpo no processo de aquisição de conhecimento, destacando que o aprendizado não é simplesmente um processamento cerebral de informações percebidas em um meio pré-determinado, mas sim o resultado das relações entre o organismo e o mundo. Sob essa perspectiva, houve uma ressignificação da compreensão do movimento na aprendizagem. O corpo não é mais entendido como um simples recipiente para o cérebro, mas sim como o meio fundamental com o qual o ser humano age no mundo e produz conhecimento. 

Importância do movimento para a aprendizagem   

Desde bebês, para absorver informações, ouvimos, olhamos, nos movemos, tocamos e sentimos vários estímulos ao nosso redor. Trazemos um aparato biológico que nos permite sobreviver, mas a aprendizagem e o desenvolvimento se dão pela interação com o outro e com o meio. 

Antes da aquisição da linguagem, a motricidade é a característica essencial da criança. É a primeira estrutura de relação e correlação com o meio, com os outros e posteriormente com os objetos. Com a maturação neurológica, os reflexos são inibidos e a criança passa a coordenar os campos sensorial e motor e consegue, então, ligar a percepção aos movimentos próprios para produzi-los de forma diversificada. É a ação motora que passa a regular o aparecimento e o desenvolvimento das formações mentais.

Assim, podemos dizer que o corpo é um instrumento fundamental para o amadurecimento da criança, e, portanto o movimento na aprendizagem é essencial. O desenvolvimento motor permite a exploração ativa do ambiente por meio da manipulação dos objetos, da repetição das ações, do domínio do próprio corpo e do controle do esquema corporal. É pela sua estrutura física que a criança interage com o seu meio, com as pessoas com quem convive e com os objetos à sua volta.     

Toda experimentação que gera um aperfeiçoamento motor ou cognitivo é classificada como aprendizagem, sendo conceituada como resultado da interação das estruturas mentais com o meio ambiente, fazendo com que haja uma mudança no comportamento obtido pela experimentação. Essa aprendizagem é constituída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais, viabilizados pela plasticidade dos processos neurais cognitivos.

Importância do movimento para consolidar conceitos na aquisição da segunda língua

Na fase de educação infantil, a exposição a estímulos emocionais, sensoriais, motores e sociais variados, contribui para a manutenção das sinapses já estabelecidas e para a formação de novas sinapses gerando novos comportamentos.

As estratégias pedagógicas devem utilizar recursos que sejam multissensoriais para a ativação de múltiplas redes neurais que estabelecerão associação entre si. Se as informações/experiências forem repetidas, a atividade mais frequente dos neurônios relacionados a elas resultará em neuroplasticidade e produzirá sinapses mais consolidadas.

Estudos apontam que a estrutura do cérebro humano é alterada pela experiência de adquirir uma segunda língua. Ao analisar indivíduos bilíngues, pesquisadores descobriram que essas pessoas apresentam maior densidade de massa cinzenta no lobo parietal inferior do hemisfério esquerdo e que a reorganização estrutural desta região está relacionada à proficiência e à idade de aquisição da segunda língua. 

Nas situações de interação na aula de inglês, muitas vezes o professor utiliza os gestos e o apoio visual para favorecer a compreensão dos alunos. Por exemplo, ao cantar a música “Head, shoulders, knees and toes” e tocar as partes respectivas do corpo (cabeça, ombro, joelho e pé) enquanto pronuncia as palavras, as crianças imitam o movimento do professor e associam rapidamente o nome das partes do corpo a cada área que tocam e sentem. Nesse momento, recolhem informações a partir do gesto que visualizam e reproduzem. Assim, os movimentos expressam informações que constituem um sistema integrado com a fala e servem como uma representação visual do pensamento incorporado durante o processo comunicativo.

Sugestões de recursos didáticos facilitadores para o ensino de inglês por meio de estímulos multissensoriais e corporificados: 

1) Brincar de pular amarelinha para aprender os números em inglês

Após explorar a contagem de 1 a 10 utilizando objetos disponíveis em sala que os alunos possam tocar, como blocos de encaixe, livros, cadeiras, mesas, número de meninos e de meninas presentes, o professor pode propor a brincadeira de amarelinha. Na criança, a capacidade de pular em um pé só indica o aperfeiçoamento da coordenação motora, do equilíbrio e do desenvolvimento cognitivo.

Ao lançar a pedrinha, o aluno desenvolve a coordenação óculo manual. Ele tem que identificar o alvo com os olhos e traduzir esse conhecimento em termos de movimento do braço e da mão, calculando corretamente a força necessária para atingir o objetivo.  

À medida em que avança as casas da amarelinha, pulando, o estudante coloca em prática, fisicamente, seu plano de ação, ao mesmo tempo em que trabalha a capacidade de adaptação. 

A brincadeira em grupo, desenvolve outras habilidades como a atenção, a memória, o aguardar a vez e a socialização, além de estimular a coordenação motora. A emoção gerada pela experiência vivenciada pelo corpo, certamente irá ajudar na memorização dos números em inglês.

2) Atividade sensorial para aprender as frutas em inglês

Inicialmente, o professor deve explorar o conteúdo de frutas usando cartões com imagens representativas. A partir de questionamentos orais, deve mostrar os cards e pedir para que os alunos reproduzam sua fala. A seguir, deve trazer frutas reais e deixar que as crianças toquem e observem suas formas e texturas. Depois, é preciso colocar em uma sacola, frutas de plástico e desafiar os alunos, um de cada vez, que segurem por fora e tentem descobrir o objeto tocado.

Outras atividades posteriores podem ser utilizadas para fixar o conteúdo, como brincar de bingo de frutas, confeccionar um cartaz utilizando recortes de encartes de supermercado, ou ainda propor uma brincadeira motora, como o Get It. Nessa corrida de revezamento, os alunos formam uma fila e o professor coloca os cartões com as frutas a uma distância. O professor fala uma charada, por exemplo “it’s a fruit, it’s red, it’s round”. O primeiro aluno da fala corre e pega o cartão correspondente à descrição.

Podemos destacar como benefícios dessas atividades a criatividade, a coordenação motora, a percepção, a imaginação, a observação, o raciocínio e a concentração. 

Assim, fazemos um convite aos educadores para que lancem um olhar sobre a importância do movimento corporal na aprendizagem, para que possam inserir em seu dia a dia, formas diferenciadas de interação com os alunos que possibilitem o movimento e as experimentações multissensoriais como estratégia para favorecer a compreensão e aquisição de conceitos numa segunda língua. 

Jucymar Boccazio

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