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Neuroeducação

Neuroeducação: como estimular as funções cerebrais e potencializar o aprendizado

Com os estudos recentes nas áreas de neuroimagem, conhecimentos mais amplos sobre as estruturas cerebrais relacionadas à aprendizagem começaram a ser divulgados, e a sala de aula ganhou uma nova dimensão como área de investigação do processo de aprendizagem. Sendo assim, surge a neuroeducação.

Seu objetivo é mostrar como o cérebro e o processo educacional estão interligados, auxiliando os professores a entenderem como as informações são processadas. Assim, eles ficam cientes de como as atividades de sala de aula ajudarão os alunos a aprender de forma mais eficiente.

Aprender é um processo que não se limita à absorção de conteúdo, mas envolve uma rede múltipla de ações neurofisiológicas e neuropsicológicas, bem como a influência do meio em que o estudante está inserido. Nesse processo, destaca-se o papel das funções executivas (FE) cerebrais, que auxiliam o indivíduo a organizar, iniciar, coordenar o seu comportamento e desenvolver uma atividade com um objetivo final determinado, com o auxílio do professor. 

Usando uma imagem metafórica, podemos dizer que, assim como os aeroportos precisam de um eficiente sistema de controle de tráfego aéreo para organizar com segurança as chegadas e partidas das aeronaves, o aluno precisa que os professores atuem de maneira a treinar as FE cerebrais para filtrar distrações, priorizar tarefas, definir e atingir metas e controlar impulsos.   

Mas quais são os componentes básicos das funções executivas do cérebro?

Antes de tudo, precisamos entender que o termo ‘executivo’ está sendo utilizado como regularizador do comportamento humano. Desta forma, monitoramento, planejamento, flexibilidade cognitiva, atenção seletiva e memória de trabalho são os constituintes básicos das funções executivas, características primordiais do processo de aprendizagem.

No entanto, as FE demoram a se desenvolver, pois as áreas cerebrais envolvidas estão localizadas no córtex pré-frontal, que é a última área cerebral a amadurecer, e que continua a se desenvolver além da adolescência e até o início da vida adulta. Portanto, crianças e adolescentes não estão maduros o suficiente para automonitorar suas ações e precisam de ajuda para executar diferentes atividades. 

As funções executivas e componentes adaptativos

Para podermos entender melhor o papel das FE, vamos exemplificar algumas de suas ações: imitar e aprender mediante a observação do comportamento alheio, como fazem as crianças de forma mais intensa nos primeiros anos de vida; saber liderar e ser criativo; saber se colocar no lugar do outro: empatia, cumprir regras, escolher como agir em um contexto social específico; usar diferentes ferramentas; desenvolver habilidades comunicativas; liderar grupos; formar coalizões; diferenciar estímulos relevantes e irrelevantes; antecipar e prever as consequências das escolhas, entre outras.

As FE não formam um bloco único e isolado, mas trabalham interligadas. Apenas para fins metodológicos, descreveremos as habilidades separadamente. Acompanhe como as funções executivas podem auxiliar os alunos a absorverem o conteúdo com excelência.

Planejamento: base para qualquer processo de aprendizagem

A execução de atividades de forma eficaz exige planejamento, uma das habilidades das FE. É mediante o planejamento que o indivíduo vai determinar seu plano de ação, ou seja, que decisões serão tomadas, bem como a seleção dos instrumentos e recursos necessários para a conquista das metas estabelecidas. Diante de uma meta e um plano de ação, devemos monitorar a realização de cada passo, e usar as correções necessárias. 

Dessa forma,  ao dar instruções, por exemplo, para a realização de uma determinada atividade, o professor demonstra as etapas que deverão ser seguidas para auxiliar o aluno a planejar o passo a passo da atividade e executá-la de forma eficiente. Sendo assim, é fundamental que o professor sempre verifique se as instruções foram de fato compreendidas pelos alunos.

O monitoramento: elemento primordial no processo de aprendizagem

O monitoramento permite ao indivíduo manter suas ações de acordo com padrões estabelecidos, regular modos de agir, rever e alterar ações. Por exemplo, em sala de aula de ensino de línguas para alunos entre 7 e 11 anos, muitas vezes eles ainda não estão cognitivamente preparados para fazer um automonitoramento de suas ações.

Sendo assim, o feedback dado pelo professor para o aluno para sua produção tanto escrita, como oral, permitirá que desajustes ou erros relacionados à língua alvo sejam identificados e sejam oferecidas oportunidades e mecanismos para que o aluno faça os ajustes necessários e amplie seu potencial de aprendizagem.

Mindfulness na escola

Flexibilidade cognitiva: aprendendo a lidar com ambientes diversos

Dentro das FE, a flexibilidade cognitiva é a habilidade que permite que o indivíduo mude ou alterne objetivos durante a realização de uma tarefa de acordo com o que o meio lhe oferece.

Aprender uma língua, por exemplo, demanda criatividade para formulação de um discurso em uma língua que não é a sua nativa, e o aluno precisa adaptar-se às exigências, estruturas e diferentes perspectivas dessa nova língua. 

A flexibilidade cognitiva também ajuda o aluno na compreensão de expressões idiomáticas, por exemplo, não ficando limitado ao sentido literal da frase, mas tendo acesso ao sentido dito figurado. Sendo assim, o aluno considera diferentes interpretações e tem acesso a uma riqueza de diferentes significados lexicais. 

O controle inibitório: aprendendo a lidar com os impulsos 

O controle inibitório é outra habilidade das FE, que auxilia o indivíduo na obtenção de metas, pois permite o controle da impulsividade e das ações precipitadas e automáticas, ou seja, inibem-se respostas inadequadas ou respostas a estímulos distratores, que impedem o curso efetivo de uma ação.

O uso de jogos em sala de aula auxilia o desenvolvimento do controle inibitório, visto que os participantes precisam respeitar regras e aguardar o momento certo de realizar suas jogadas. Um outro exemplo pode ajudar nessa compreensão: em uma atividade em que dois alunos precisam criar um diálogo, é necessário que os turnos da fala sejam respeitados para que ambos alunos tenham oportunidade de falar.

Dessa forma, o professor precisa ensinar aos alunos técnicas e estratégias de como fazer a tomada de turno. Delimitar o tempo das atividades propostas em sala de aula também auxilia na inibição de comportamentos inapropriados, pois o aluno sabe que precisa realizar a atividade em um tempo preestabelecido.

Atenção seletiva: como lidar com o excesso de informações 

A atenção seletiva, outra habilidade das FE, refere-se à capacidade de saber selecionar apenas o que é de fato importante e adequado em determinada situação e não se distrair com os diversos estímulos presentes no ambiente. 

Em sala de aula, para que o aluno realize tarefas com sucesso, é necessário que ele saiba selecionar as informações relevantes para a execução da tarefa, ignorando os distraidores. Porém, nem sempre os alunos conseguem fazer uma filtragem das informações e pensamentos, e precisam que os professores lhes ajudem a saber exatamente no que é necessário focar a atenção. 

Por exemplo, exercícios de compreensão auditiva exigem um alto grau de atenção seletiva e para tal, os professores precisam fazer atividades preliminares, que preparem o aluno para a tarefa, tais como explicar o significado de algumas palavras e fazer perguntas que ajudem o aluno a focar a atenção no que de fato é relevante.

Memória de trabalho: como reter informações e executar as tarefas

A memória de trabalho é um sistema que armazena as informações enquanto uma atividade está sendo realizada, retendo a informação temporariamente e eliminando-a em seguida. Enquanto sistema cognitivo, a memória de trabalho desempenha um papel fundamental, servindo de base para o desenvolvimento da aprendizagem. 

Na sala de aula, o aluno precisa continuamente usar os recursos da memória de trabalho para poder realizar uma série de tarefas, desde as mais simples, como por exemplo, lembrar as instruções para a realização de uma atividade, até as mais complexas, que exigem o armazenamento e o processamento de informações e o controle do progresso na aprendizagem. 

Formar frases em inglês, por exemplo, envolve vários subprocessos, tais como acessar o vocabulário necessário armazenado na memória de longo prazo e organizar as informações dentro de uma estrutura frasal de acordo com as regras da língua. Tais subprocessos são coordenados e executados pela memória de trabalho de seus componentes. 

Neuroeducação e o aprendizado de excelência

O sucesso da aprendizagem envolve o estabelecimento de objetivos, planejamento, flexibilidade de pensamento, modificação de estratégias para a execução de atividades, manutenção e manipulação de informações na memória de trabalho, autorregulação e verificação de respostas produzidas, revisão e verificação de tarefas, entre outras. 

Verifica-se, desse modo, que a aprendizagem exige a coordenação e integração coerente das múltiplas funções executivas, que ajudarão os alunos a lembrar e seguir instruções, evitar distrações, controlar impulsos, ajustar-se à modificação de regras e persistir no alcance de metas.

Nesse caminhar, os estudos na área de neuroeducação têm como objetivo auxiliar professores e demais profissionais da área de educação a ter uma compreensão mais ampla e consistente do processo de aprendizagem.

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Andreia Fernandes

Mestre em Educação (UCP), especialista em Neurociência (UFRJ) e graduada em Comunicação Social (UFRJ), Andreia é Coordenadora Acadêmica no Edify Education.

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