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Planejamento de Aula Baseado na Ciência da Educação

  • Práticas Pedagógicas

O planejamento de aula é fundamental quando pretendemos obter resultados positivos de aprendizagem dos alunos. No entanto, a tarefa do professor de antecipar diferentes situações e ao mesmo tempo considerar as necessidades individuais de cada aluno, os recursos disponíveis na sala de aula ou online, bem como ajudar os alunos a se manterem concentrados, é um enorme desafio. 

Nesse cenário, a Ciência da Educação e o guia Engajar, Construir e Consolidar (ECC) podem oferecer muitas reflexões interessantes sobre planejamento eficaz. Este artigo explora esse guia e seus princípios.

Antes de irmos adiante, gostaria de mencionar meu professor Paul Howard-Jones da University of Bristol e seus colaboradores que desenvolveram essa estrutura. Ele certamente gostaria de enfatizar que o guia ECC não é uma receita fixa para o planejamento de aulas. Na verdade, o site scienceoflearning-ebc.org afirma o seguinte:

“A guia ECC da Ciência da Educação não fornece qualquer prescrição para um ensino eficaz. Em vez disso, a estrutura é um conjunto de conceitos que podem dar uma visão fascinante dos processos subjacentes à aprendizagem em sala de aula. A estrutura é projetada como uma ferramenta para apoiar os professores a falar, refletir e desenvolver sua prática em relação à aprendizagem. ”

Acredito firmemente que não existe tal estrutura rígida e prescritiva para o planejamento de aula, uma vez que o ensino e a aprendizagem formam um sistema complexo com muitas variáveis. Seria como tentar cozinhar usando um livro de receitas quando suas panelas e ingredientes têm vida própria. Dito isso, vamos dar uma olhada no guia e seus princípios.

ENGAJAR

O primeiro passo da estrutura é ENGAJAR nossos alunos. Sem engajamento, não há atenção. Sem atenção, não há memória. Se não houver memória, o aprendizado não ocorreu. Aqui estão alguns princípios do ENGAJAR que você deve ter em mente no planejamento de aula e quando for ministrar:

1. Cada cérebro é único

Lembre-se de diferenciar e personalizar as atividades. O que funciona para alguns pode não funcionar para outros. Você sempre pode dar mais espaço para diferentes atividades com a mesma finalidade pedagógica e incentivar os alunos a se conectarem com coisas que são relevantes para eles.

2. Resposta de abordagem (Approach Response)

O sistema de recompensa do cérebro é ativado em nossos alunos quando reconhecemos seus esforços com elogios, quando oferecemos a eles novas informações que despertam sua curiosidade, quando eles têm escolha e podem compartilhar a atenção conosco e seus colegas. Tornar os tópicos do livro mais interessantes ao compartilhar curiosidades sobre eles, bem como trabalhar em pares ou grupos pode tornar as aulas mais envolventes

3. Reduzir o medo e a ansiedade

Quando os alunos se sentem intimidados ou com medo da exposição, eles não conseguem usar suas habilidades cognitivas conscientes de forma eficiente. Isso significa que devemos criar um relacionamento positivo com eles além de um ambiente seguro onde os erros sejam bem-vindos e façam parte do processo de aprendizagem. O humor e a diversão também desempenham um papel central na redução do medo e da ansiedade. 

4. O cérebro é plástico

Isso basicamente significa que o cérebro pode mudar sua estrutura ao longo de nossa vida fazendo novas conexões. Aprender é o que o cérebro faz e nossos alunos precisam perceber que não somos os únicos responsáveis ​​por seu aprendizado. 

Eles devem ter agência e ser proativos. Podemos ajudá-los a compreender essas coisas incluindo no planejamento de aula discussões sobre como nossos cérebros aprendem e alguns princípios básicos da Ciência da Educação. Podemos falar sobre memória, atenção, metacognição, autoeficácia, mentalidade de crescimento e motivação.

CONSTRUIR

Agora que seus alunos estão engajados, devemos ajudá-los a CONSTRUIR novos conhecimentos e habilidades em seus cérebros. Isso exige que respeitemos sua memória de trabalho limitada e tentemos evitar sobrecarga cognitiva. Os três princípios de CONSTRUIR são:

1. Conhecimento prévio

Imagine tentar construir uma parede sem seus alicerces. Isso não vai funcionar. Isso também se aplica aos nossos alunos. Eles não serão capazes de aprender o Third Conditional de forma eficaz sem primeiro terem aprendido Past Simple e Past Perfect

Os professores podem ajudar os alunos a ativar o conhecimento prévio para que possam começar a construir novos conhecimentos de forma mais eficaz. Isso pode ser conseguido simplesmente ao pedir que os alunos recuperem (tentem lembrar) algo ou por meio de um quiz (um questionário, por exemplo).

2. Memória de Trabalho

Nosso sistema de memória de trabalho é bastante limitado e isso significa que muita informação pode sobrecarregá-lo rapidamente. Uma forma de evitar sobrecarga cognitiva é comunicar-se com clareza, sem muitos jargões e palavras complexas, usando analogias e a técnica de scaffolding. Também podemos fazer algumas pausas cerebrais durante a aula para permitir que os cérebros de nossos alunos “respirem um pouco”

3. Sistema de neurônios-espelho

Os humanos têm a incrível capacidade de aprender observando os outros. Também podemos prever o que os outros estão sentindo e pensando com base em sua linguagem corporal. Tudo isso é possível graças ao sistema de neurônios-espelho. 

Isso significa que devemos usar gestos para transmitir significado e devemos agir com entusiasmo para impactar positivamente nossos alunos. Demonstrações com objetos reais e gesticulação são ótimas ferramentas para ajudar os professores a reduzirem o risco de sobrecarga cognitiva.

CONSOLIDAR

Novas memórias podem se deteriorar rapidamente sem ensaio (repetição) e aplicação. Em outras palavras, informações recentemente “aprendidas” deixarão nosso cérebro a menos que as CONSOLIDEMOS . A consolidação, no entanto, leva tempo e se beneficia de várias representações, de modo que nosso córtex pode formar redes neuronais maiores e facilitar a recuperação. Abaixo estão os três princípios de CONSOLIDAR.

1. Ensaio

Quando somos expostos a novas informações ou habilidades pela primeira vez, isso exige que façamos um esforço consciente para “guardá-las” em nossa memória. Se quisermos torná-las mais automáticas, para que possamos fazer cada vez menos esforço consciente, precisamos praticar. E praticar significa ensaiar, assim como nos tornamos melhores motoristas quanto mais dirigimos ou como melhoramos ao falar um idioma adicional cada vez que o usamos. 

Os professores precisam ajudar seus alunos a ensaiar o vocabulário, a gramática e as habilidades recém-aprendidas durante a aula e depois. Perguntas de verificação de conceito (Concept Checking Questions) são ótimas maneiras de fazer isso.

2. Aplicação de conhecimentos

É importante que os alunos tenham a oportunidade de enriquecer seus modelos mentais de novos conhecimentos e habilidades que aprenderam. Os alunos costumam usar seus novos conhecimentos para completar atividades no livro ou discutir em pares ou grupos na sala de aula. 

Os professores precisam dar a eles a oportunidade de criar organizadores gráficos, mapas mentais, participar de debates e trabalhar em projetos, bem como ensinar suas famílias para que possam expandir esses modelos mentais e, então, ter vários pontos de acesso para recuperar essas memórias no futuro.

3. Sono

A consolidação da memória declarativa, ou seja, de conceitos e significados, ocorre durante o sono. Eu sei que os professores não têm controle sobre os padrões de sono de seus alunos, mas os professores têm controle de quando passar o dever de casa e com que frequência pedir aos alunos que revisitem o conteúdo a que são expostos em suas aulas.

Uma das estratégias mais fáceis que podem funcionar com eficácia para ajudar na consolidação da memória é simplesmente pedir aos alunos que façam o dever de casa no dia seguinte após a aula. Assim, eles terão dormido, consolidado algumas memórias, e ao fazerem o dever de casa serão obrigados a resgatar informações, o que está alinhado com o conceito de repetição espaçada.

Lembre-se de que este guia se destina a fornecer alguns insights durante os estágios de planejamento, apresentação e reflexão de sua aula. Não precisa e nem deve ser visto como um método passo-a-passo fixo para a lição perfeita só porque foi baseado na Ciência da Educação.

Em vez disso, pense neste guia como uma lista útil que pode ajudar os professores a pensarem de maneira mais metacognitiva e, com sorte, ajudar os seus alunos a alcançarem resultados de aprendizagem mais eficazes.

Se você quiser aprender mais sobre o assunto, assista esse webinário sobre como aplicar esse guia.

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