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programa bilíngue

Programa Bilíngue de A a Z

  • Bilinguismo

Nos últimos anos, tem-se discutido muito o conceito de ensino bilíngue e seu lugar no sistema educacional brasileiro. Com raras exceções até pouco tempo, o ensino de língua adicional, particularmente de língua inglesa, era restrito a poucas horas de contato por semana em uma escola regular ou em curso de idiomas paralelo. O programa bilíngue chega justamente neste cenário.

No entanto, com o boom de soluções bilíngues no mercado, além do recente desdobramento pioneiro com a elaboração e publicação do parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) sobre as Diretrizes Nacionais Curriculares para o Ensino Plurilíngue, qual é a situação desse cenário atualmente? Quais são as diferenças entre um programa bilíngue, uma escola bilíngue, uma escola internacional e um curso de idiomas? 

Este artigo traz um panorama geral sobre as soluções bilíngues disponíveis com foco no cenário atual e na língua inglesa. Queremos te ajudar na sua compreensão da estrutura, princípios, passos de implementação e o acompanhamento de um programa bilíngue. Se você é membro do ecossistema escolar (gestão, corpo docente, família ou estudante) ou simplesmente gostaria de ter uma visão mais completa sobre programas bilíngues, esse texto é para você!

Conceitos e Definições

Educação Bilíngue e Translinguagem

Educação Bilíngue é um termo amplo que abarca diferentes modalidades de soluções bilíngues em contextos variados. De maneira objetiva e com o foco no aspecto linguístico, Megale (2018, p. 5) propõe que a Educação Bilíngue fundamenta-se no:

[…] Desenvolvimento multidimensional das duas ou mais línguas envolvidas, a promoção de saberes entre elas e a valorização do translinguar como forma de construção da compreensão de mundo de sujeitos bilíngues.

MEGALE, 2018, p. 5.

O conceito de translinguagem, muito utilizado em obras sobre bilinguismo e plurilinguismo, com autores como Ofelia García e Colin Baker (2007) e Li Wei (2018), refere-se à prática da utilização de todo o repertório linguístico do sujeito bilíngue para dar sentido ao discurso, para se comunicar com o outro, o que implica numa visão heteroglóssica de língua, ou seja, a perspectiva de que as línguas não formam sistemas independentes.

Isso quer dizer que as línguas não são armazenadas separadamente no cérebro e que elas se sobrepõem e se entrelaçam de maneira natural (BUSCH, 2015). Um exemplo simples é o de dois falantes bilíngues de português e inglês que conversam utilizando elementos das duas línguas de forma dinâmica e inteligível.

Escola Bilíngue

Dentro desse contexto de educação bilíngue, temos a figura de uma escola bilíngue. A denominação de escola bilíngue é normalmente dada às escolas que:

  1. Possuem currículo lecionado em português e língua adicional de maneira integrada. Isso pode significar ter aulas de uma mesma disciplina em português e em inglês, por exemplo, ou dividir as disciplinas de modo que algumas sejam majoritariamente ensinadas na língua nativa e outras na língua adicional
  2. Oferecem currículo adicional optativo ou não, no contraturno por exemplo, com aulas ensinadas em língua adicional, que podem ou não dialogar com o currículo regular seguido no turno. Esse currículo adicional é, via de regra, criado pela própria escola 

No primeiro exemplo, as escolas usam a abordagem CLIL (Content and Language Integrated Learning), que, de modo simples, caracteriza-se pela utilização da língua adicional como meio de instrução para o ensino de disciplinas da grade curricular. Ou seja, é a aula de matemática, história, geografia ou qualquer outra matéria dada em inglês.

Logo, com essa abordagem, aprende-se tanto a matéria quanto a língua adicional. No segundo exemplo, a escola pode utilizar CLIL (ou alguns de seus elementos) bem como focar mais em Aprendizagem Baseada em Projetos

É importante enfatizar que existe um universo muito pequeno de escolas bilíngues no Brasil. Lembre-se que não estou considerando escolas de fronteira, indígenas ou educação para surdos, contempladas pela publicação do CNE

Programa Bilíngue

Diferentemente de uma escola bilíngue, um programa bilíngue é, de modo geral, um pacote de serviços oferecido por uma empresa terceirizada sem relação prévia com a escola, na qual existem a elaboração de materiais didáticos próprios e desenvolvimento profissional fundamentado nas abordagens e metodologias relacionadas ao bilinguismo e à ideia de centralidade do aluno no processo de ensino-aprendizagem. Portanto, o programa bilíngue possui toda a estrutura necessária, incluindo livros, plataforma de estudos, suporte comercial e pedagógico, além de expertise, para a implementação em uma determinada escola. 

Vale frisar que tanto a escola bilíngue assim como a internacional, que explico na próxima seção, precisam dispor de professores especialistas em suas matérias e proficientes na língua adicional, uma vez que o ensino dessas disciplinas do currículo é feito nessa língua.

No caso de um programa bilíngue, os professores da escola que adota o programa são normalmente os professores de língua inglesa que a escola contratou. Esses profissionais passam por uma avaliação linguística e, caso tenham o nível adequado de competência, fazem um treinamento inicial sobre o programa, recebem suporte constante dos coordenadores ou mentores do programa e seguem recomendações didático-pedagógicas elaboradas pelo programa.

O programa bilíngue caracteriza-se, portanto, pela adição de horas de contato com a língua adicional, no turno ou contraturno, e pela utilização de abordagens mais centradas no aluno, com a inclusão de aprendizagem baseada em projetos, imersão e CLIL. 

Uma escola sem programa bilíngue normalmente dispõe de um ou dois tempos de contato com a língua inglesa no currículo durante a semana e as aulas são dadas majoritariamente em português por meio de uma abordagem mais centrada no professor.

Com um programa bilíngue, a escola dispõe de carga horária aumentada (três, cinco ou até dez pontos de contato semanais) para as aulas de inglês, que são lecionadas em inglês de maneira mais comunicativa, baseada em projetos e com inserção de elementos de CLIL.

Logo, uma escola com programa bilíngue pode ser chamada de escola bilíngue? A resposta é não ou pelo menos não deveria. As escolas bilíngues têm (ou deveriam ter), naturalmente, carga horária ainda maior da língua adicional e corpo docente qualificado tanto em suas disciplinas quanto no ensino com a língua adicional. 

Isso torna as escolas realmente bilíngues português-inglês infinitamente mais exclusivas em um país como o Brasil, onde apenas 5% da população tem alguma competência em inglês segundo o relatório do Conselho Britânico.

Escola Internacional

As escolas internacionais seguem o currículo e calendário escolar determinados pelo país de origem. Elas são como um pedaço do território do país estrangeiro e funcionam de acordo com a legislação desse país. Um exemplo prático é o de uma escola americana, que trabalha com as disciplinas em inglês e segue as datas e as diretrizes curriculares dos Estados Unidos.

Essa escola pode oferecer cursos em língua portuguesa, que podem ser integrados ou não ao tempo regular de aulas. Os alunos dessa escola aprendem o que os alunos em uma escola dos EUA aprendem e, logo, têm as certificações e/ou diplomas necessários para continuar sua educação nos EUA. Vale lembrar que escolas brasileiras em territórios estrangeiros também configuram essa categoria.

Curso de idiomas

Centros de línguas são comuns no Brasil e seu leque de opções de idiomas é extremamente variado. É comum, porém, encontrarmos escolas de idiomas que ofereçam como língua principal o inglês e agreguem valor com idiomas como o espanhol e outras línguas de elite (normalmente as europeias – alemão, francês, italiano, etc). Essas escolas geralmente:

  1. têm material de elaboração própria ou trabalham com livros de grandes editoras frequentemente internacionais
  2. têm um currículo desalinhado com o currículo utilizado na escola regular
  3. trabalham com abordagens e métodos variados e diferentes das outras soluções bilíngues (ex. Abordagem comunicativa e método audiolingual)
  4. são fisicamente separadas da escola regular e encontram-se em locais variados 
  5. trabalham com turmas reduzidas (até 20 alunos no máximo)
  6. variam bastante em termos de formação de professores (algumas contratam sem experiência prévia ou diploma na área enquanto outras exigem certificações  internacionais)
  7. estão associadas ou não ao governo ou instituições de países falantes da língua adicional ensinada (como centros binacionais atrelados ao Departamento de Estado Americano)

Essas escolas geralmente oferecem entre 2 e 5 horas semanais de contato com o idioma, misturam alunos de diferentes idades na mesma turma, criam flexibilidade de ensino com turmas intensivas, cursos de férias e aulas aos sábados além de, ocasionalmente, criarem convênios com escolas regulares com a possibilidade de utilização do espaço da própria escola para o ensino da língua adicional.

Contudo, a falta de comodidade e praticidade de ter que levar e buscar os filhos para um outro local para aprender inglês tem dado mais valor às soluções bilíngues dentro da própria escola regular das crianças.

É importantíssimo lembrar aqui que as escolas de idiomas diferem substancialmente das outras soluções bilíngues citadas acima pelo fato de tratarem o idioma ensinado muito mais como uma sequência de conteúdos do que como um meio de instrução. E essa distinção tem consequências relevantes.

Numa escola bilíngue, internacional ou em escola com programa bilíngue, estar imerso em um ambiente onde a língua adicional é falada por várias horas durante a semana determina, em certa medida, a aquisição natural dessa língua. É mais fundamental, portanto, estar exposto à língua adicional por um longo período.

O que o Programa Bilíngue traz consigo?

Agora que entendemos melhor a diferença entre as soluções bilíngues, vamos analisar os pontos centrais e as etapas de implementação e acompanhamento de um programa bilíngue. 

Princípios do programa bilíngue

Programas bilíngues, conforme discutido anteriormente, primam pela implementação de um pacote de serviços que aumente o contato dos alunos com a língua adicional por meio da utilização de materiais didáticos baseados em uma abordagem mais comunicativa com elementos de CLIL e Aprendizagem Baseada em Projetos. Dentro desse pacote, podemos identificar alguns aspectos importantes:

  1. Suporte comercial e pedagógico
  2. Apoio de Marketing
  3. Portfólio de atividades e eventos 
  4. Promoção de desenvolvimento profissional
  5. Estrutura de materiais físicos e digitais
  6. Expertise em abordagens, metodologias e bilinguismo

Pedagogicamente, o programa bilíngue prioriza:

  1. Excelência linguística (com profissionais de nível B2 ou acima)
  2. Protagonismo do aluno
  3. Interdisciplinaridade
  4. Formação continuada dos profissionais envolvidos
  5. Desenvolvimento de competências
  6. Cidadania global
  7. Imersão 
  8. Habilidades do século XXI

Programas bilíngues bebem de fontes diversas e usam como inspiração conceitos e práticas respaldadas por evidência científica e literatura acadêmica. Além disso, diversas pesquisas nacionais e internacionais discorrem sobre a importância do bilinguismo como fonte de reserva cognitiva, o que aumenta a capacidade do cérebro de lutar contra doenças neurodegenerativas, bem como o aumento da flexibilidade cognitiva, que tem desdobramentos importantes na capacidade de raciocínio lógico e matemático, ganho de atenção e memória, além de incremento na capacidade criativa e na visão e compreensão de mundo das crianças.

Etapas de implementação

Nosso programa bilíngue Edify segue alguns passos intuitivos após o primeiro contato com a escola:

  1. Reunião de boas vindas para gestores e professores sobre os fundamentos do programa e demonstração dos recursos
  2. Avaliação e suporte na seleção de professores para o programa
  3. Treinamento das equipes da escola sobre nosso portal e pedido de materiais
  4. Sondagem do nível dos alunos para determinação da sequência pedagógica
  5. Contato com as famílias por meio de reunião para apresentação do programa
  6. Treinamento inicial dos professores sobre nossos princípios, recursos e materiais

Antes, durante e após a contratação do programa, oferecemos suporte comercial, de marketing e pedagógico constante. A ideia é seguirmos de perto a evolução do programa bilíngue com foco no desempenho dos alunos. Nossos mentores fazem o acompanhamento dos professores com treinamentos constantes, observações de aula e sessões de feedback, dicas sobre nossos recursos digitais, ideias de implementação de projetos, auxílio na preparação do calendário escolar e assistência com eventos, além de recomendar soluções mais personalizadas dependendo dos objetivos da escola. 

O eixo de formação continuada é primordial e um dos pilares do sucesso de implementação de um programa bilíngue. Os mentores criam em conjunto com os professores um plano de desenvolvimento individualizado para promover a reflexão sobre práticas de ensino e desenvolver competências ao longo da evolução do programa. Em um mundo dinâmico e incerto, esse pilar é mais importante do que nunca. 

Como escolher um programa bilíngue para a minha escola?

Se você ou a sua escola tem interesse em adotar um programa bilíngue, lembre-se de priorizar alguns dos quesitos mencionados acima. Excelência linguística e acadêmica são essenciais. Um programa bilíngue consolidado, respaldado na experiência acumulada de anos de ensino e na promoção da formação de seus colaboradores é a aposta certa. Outros fatores importantes são:

  1. Qualidade dos materiais didáticos e recursos digitais
  2. Foco no aluno e no seu desenvolvimento linguístico e socioemocional
  3. Suporte pedagógico constante, flexível e voltado para a capacitação contínua
  4. Expertise em bilinguismo, metodologias ativas e abordagens pertinentes

Um ponto de atenção que precisa ser levado em consideração para o gestor escolar é a escolha de um parceiro que tenha visão e valores similares a da sua escola e apoie o crescimento da instituição além da sala de aula. Aqui no Edify, por exemplo, além do apoio pedagógico, comercial e de marketing já mencionados, temos uma área exclusiva dedicada para o sucesso das nossas parcerias, em que entendemos as necessidades individuais de cada escola e agimos para garantir o seu sucesso.

Considerações finais

Com as discussões sobre a promoção de um sistema educacional bilíngue no Brasil, devemos entender o cenário vigente e refletir sobre as implicações potenciais. É fato que existem diversos cenários de ensino bilíngue/plurilíngue no Brasil de mais de duas centenas de línguas faladas em todo o território nacional.

Línguas de fronteira, indígenas, e de elite (europeias), assim como de sinais misturam-se no grande mosaico da realidade nacional. A visão, portanto, de que o Brasil é um país monolíngue está equivocada. Contudo, para uma maioria significativa, falar português, com as suas diversas variações, é a realidade predominante. 

Em relação à língua inglesa, existe uma gama de opções, no entanto, o acesso e os resultados alcançados têm sido exclusivos para uma parte pequena da população. Em termos populacionais, ainda são poucos aqueles que têm a possibilidade de estudar em cursos paralelos de inglês ou de frequentar escolas bilíngues e internacionais.

Os programas bilíngues surgem como opção intermediária para trazer comodidade, praticidade, excelência de ensino e agregar valor nas escolas, que passam a ter um diferencial importante. 

Também é fato que, apesar do aumento de oferta de programas bilíngues, ainda existe um abismo de acesso, sobretudo nas escolas públicas, e centenas de milhões de brasileiros não aprenderão inglês nos próximos anos.

Contudo, o cenário atual traz alguma esperança com o debate sobre as Diretrizes Nacionais Curriculares para a Oferta de Educação Plurilíngue. Esse marco histórico em relação à regulamentação do ensino bilíngue no país permite a criação de protocolos e políticas de incentivo à promoção do bilinguismo (especificamente concernente à língua inglesa) entre as gerações futuras. 

Talvez o fato mais fundamental e uma esperança que devemos ter sejam: 1) a ideia de que o bilinguismo é uma ferramenta eficaz de empoderamento; e 2) o desejo de que cada vez mais escolas adotem programas bilíngues para transformar a realidade de seus alunos.

Através da aprendizagem da língua inglesa, os alunos não só têm acesso a um mundo mais amplo de possibilidades, mas, também, têm ganhos cognitivos importantes de atenção, memória, raciocínio lógico, criatividade e tolerância. Sem contar com a manutenção de um cérebro mais saudável ao longo das décadas. 

O meu sonho é o de um efeito cascata. Aquele efeito que cria efeitos sucessivos relacionados entre si. Com cada vez mais acesso à língua franca do mundo nas escolas, mais gerações ficarão fluentes em inglês e mais profissionais do ensino dessa língua estarão disponíveis no mercado de trabalho.

Mais escolas poderão adotar uma solução bilíngue e mais alunos poderão estudar em programas internacionais ou fazer pesquisa em centros estrangeiros ou simplesmente expandir o alcance do seu trabalho. Mais e mais pessoas terão ganhos cognitivos e mais desdobramentos positivos na sua aprendizagem. Mais gente poderá se comunicar com outras culturas e aprender de perspectivas diversas. É por isso que eu acredito nos programas bilíngues e espero ter convencido você a acreditar também.

Referências

BUSCH, B. The linguistic repertoire revisited. Applied linguistics, v. 33, n. 5, p. 503-523, 2012.

GARCÍA, O; BAKER, C, eds. Bilingual education: An introductory reader. Vol. 61. Multilingual matters, 2007.

MEGALE, A. H. Educação bilíngue de línguas de prestígio no Brasil: uma análise dos documentos oficiais. The Especialist, v. 39, n. 2, 2018.WEI, L. “Translanguaging and code-switching: What’s the difference.” Blog Post. OUPblog. Oxford UP 9 (2018).

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